O debate da eutanásia e do suicídio assistido é uma guerra de trincheiras

Um dos mistérios da humanidade é este: a maioria dos que acreditam na Vida Eterna é contra a eutanásia e, por outro lado, muitos dos defensores da morte antecipada medicamente assistida como meio de eliminar o sofrimento insuportável não acreditam, nem em Deus nem na hipótese de, depois desta experiência terrena, haver algo mais para usufruirmos.

Se eu fosse marciano, acabado de viajar pelo espaço até ao Planeta Azul, depois de estudar religião e ideologia para tentar perceber a espécie animal por aqui dominante, estaria tentado a concluir precisamente o contrário: os homens e as mulheres que têm fé e acreditam numa qualquer forma de vida no Além estão mais dispostos a morrer do que aqueles e aquelas sem esperança de prolongar a consciência do seu ser para além da capacidade do corpo manter-se coerente, num organismo individual e funcional.

Talvez seja o suposto castigo de um Deus, capaz de mandar para o inferno até quem, em agonia extrema, atenta contra a existência, o motivo que leva os religiosos a serem tão radicais: "a vida é sagrada", gritam usando a palavra que atribui veneração e santidade ao ato de respirar. Afinal houve um tempo em que até os suicidas eram criminalizados - em Inglaterra isso só deixou de acontecer há uns 50 anos.

No reverso desta contenda talvez seja por recusarem a existência da divindade que muitos ateus pretendem atribuir a si próprios a lei de decidir sobre o destino a dar ao fim da sua própria vida ou dos seus entes mais queridos, usurpando esse poder a uns cinco mil anos de lei religiosa sobre a civilização: "morrer com dignidade é um direito", clamam em nome da superioridade da vontade humana sobre a vontade da natureza.

No nosso país o debate sobre este tema, que pacientemente oiço com a mesma argumentação há mais de três décadas, divide-se, portanto, entre religiosos e quem o não é. Esse debate, assim delimitado, é inútil, oco e cansa-me.

Os religiosos usam falácias como esta: "Se todas as pessoas vítimas de doenças terminais tivessem cuidados paliativos, a eutanásia ou o suicídio assistido não seriam necessários." É mentira. O controlo da dor com medicamentos e psicologia obtém hoje resultados fantásticos mas não elimina muitos períodos de grande e violento sofrimento. Por outro lado, mesmo se assim não fosse, nem todas as pessoas querem chegar à morte atravessando a maior parte dos seus últimos dias em estado semiconsciente, sedadas, provavelmente numa cama de enfermaria a degradar-se visivelmente sob o olhar angustiado, impotente e embaraçado da família.

Do lado ateu repetem-me, há anos, uma outra falácia: a de que a eutanásia ou o suicídio assistido podem ser administrados sob total controlo do doente que, em caso de arrependimento, é capaz sempre de voltar atrás. É mentira: nenhum método consegue garantir a reversão de um processo de indução da morte se no último milionésimo de segundo de consciência, já sem capacidade para comunicar com o exterior ou sem forças ou tempo para deter o envenenamento do corpo, o doente quiser, afinal, viver um pouco mais.

Mesmo se fosse, mais uma vez, inconclusivo, gostava de poder debater a eutanásia e o suicídio assistido sem ter de optar por uma trincheira, nem a dos religiosos, nem a dos ateus, nem outras que orbitam em torno destas duas: a dos médicos, a do negócio dos cuidados paliativos, a da indústria farmacêutica ou outra qualquer. Não vai ser possível. Isso é lamentável e desumano.

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