Trump, o incendiário

A realidade consegue ultrapassar sempre a ficção, isso já aprendi com a vida. Neste caso, o protagonista é Donald Trump. Quando julgamos que não pode fazer asneiras mais graves do que as que já cometeu, eis que ele surpreende o mundo e mostra como a estupidez é igualzinha ao universo: não tem limites. Mais uma prova de como a teoria de Einstein é válida, mesmo pelos piores motivos.

Desta feita, o presidente dos Estados Unidos da América (EUA) anunciou ao mundo o reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel. Como um elefante numa loja de porcelanas, a declaração de Trump sobre um dos mais sensíveis dossiers do processo de paz entre Israel e Palestina deixa em cacos todo o processo negocial e declara-lhe o óbito.

Trump consegue, de uma penada, confirmar as expetativas dos setores mais radicais da Palestina e de Israel: Ambos defendiam que o processo de paz era uma perda de tempo. Por motivos diferentes, é certo, mas com desfechos similares, ambos queriam acabar com qualquer diálogo. E, claro, quem fecha as portas ao diálogo, não pode esperar coisas boas na volta.

Jerusalém é uma das mais importantes cidades do mundo pelo que significa para as três maiores religiões monoteístas. É central na identidade dos fiéis dessas religiões. A disputa sobre a cidade decorre, em parte, porque vários dos seus locais são considerados sagrados para as diferentes religiões.

Quando Trump afirma o reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel está a dizer que Jerusalém "pertence" a Israel. Deita por terra a posição das Organização das Nações Unidas (ONU), que desde 1967 nunca reconheceram Jerusalém como a capital israelita, nem a ocupação israelita de Jerusalém Oriental. Esta posição da ONU, aliás, tinha sido seguida pela comunidade internacional, que instalou as suas embaixadas em Telavive como forma de pressão para que o estatuto de Jerusalém fosse negociado por israelitas e palestinianos.

A posição de Trump dinamita os esforços da ONU e legitima, também, todas as leis discriminatórias que são aplicadas aos palestinianos em Jerusalém ocidental. Décadas de diplomacia foram deitadas pelo cano abaixo: Israel já veio reivindicar Jerusalém como a capital una e indivisível, fazendo tábua raza das diversas resoluções da ONU.

Falar de Trump e de coerência é um ato falhado, mas lembro que uma das primeiras medidas de Trump foi indicar o seu genro, Jared Kushner, para elaborar um plano de paz entre israelitas e palestinianos. A incoerência, agora, retirou decididamente os EUA de qualquer solução para a paz. Neste momento, parece que preferiram atirar gasolina para a fogueira da guerra.

Depois do foguetório do anúncio de Trump, as primeiras reações irão demonstrar o crescer da instabilidade naquela região. As ameaças já começaram a surgir, por exemplo, na Turquia, onde Erdogan afirmou que "uma linha vermelha" foi ultrapassada. A frase do negociador palestiniano do processo de paz, Nabil Shaath, é já de desespero: "Não queremos violência, mas não podemos impedi-la." As reações de Irão, Egito, Jordânia, Líbano, Síria e Arábia Saudita são todas de enorme gravidade.

O mundo muçulmano está a assumir a decisão dos EUA como uma afronta e essa é uma via aberta para o recrudescer de extremismos. Basta olhar para as décadas passadas para percebermos a ameaça sangrenta que paira sobre o futuro próximo.

As promessas de diálogo foram desfeitas e a ONU desfeiteada. Que promessas poderão agora ser feitas para sentar as partes à mesa? Que motivações, até, para haver qualquer diálogo? Do lado de Israel o sentimento é o de vitória total, tendo perdido a pressão para negociar. Do lado palestiniano, o sentimento é o dos compromissos do passado terem sido levados pelo vento.

A imprudência de Trump é dificilmente explicável pela matriz de racionalidade que nos move. É certo que cumpre uma promessa de campanha que fez para conseguir o apoio de setores mais radicais pro-israelitas. Mas, da propaganda eleitoral até ao desastre governativo, vai uma grande distância. O cowboy disparou sem pensar e já fez como vítima o processo de paz. Veremos agora a dimensão dos estragos que se seguem.

Israel já disse ao que vai: tornar Jerusalém a capital una e indivisível. De seguida, tentarão novos alargamentos dos colonatos, sentindo que os ventos lhe são favoráveis.

A comunidade internacional deve assumir o seu papel e exigir responsabilidade a Israel e o cumprimento das resoluções da ONU. Para isso é necessário repudiar a posição de Trump, reforçar o embargo de produtos israelitas e exigir o cumprimento das resoluções da ONU.

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