Um governo refém do seu próprio sucesso

O maior elogio que se pode fazer ao governo de António Costa, nestes dois anos de existência, é o de ter sido capaz de agradar a gregos e a troianos, de ter sido capaz de ter a seu lado os parceiros de esquerda e os sindicatos, por um lado, e as instituições europeias, por outro. Devolver rendimentos aos trabalhadores cumprindo, ao mesmo tempo, as exigências europeias em relação ao défice orçamental provou que havia outro caminho, mas estas não são linhas que corram paralelas, são linhas oblíquas, onde até agora foi possível encontrar um ângulo positivo, mas em que, a partir do momento em que as linhas se cruzam, se regressa à divergência que tantos custos teve para o país.
Não há dinheiro para suportar todas as reivindicações. Não há! Chegamos ao ponto em que o sucesso conseguido pelo governo obriga António Costa a revelar uma capacidade política que verdadeiramente não sabemos se tem. Não se pode retirar--lhe o mérito de ter feito o caminho que fez até aqui. As linhas correram numa trajetória sustentável, há mais dinheiro no bolso da maioria dos trabalhadores, com a reposição dos salários na função pública e o fim da sobretaxa do IRS, e o défice está controlado. O que se exige ao primeiro-ministro é uma redefinição de prioridades. Sem mexer na linha da consolidação orçamental, é preciso redirecionar os gastos públicos.
A riqueza que o país cria e de que o Estado toma grande parte em suas mãos não pode continuar a ser utilizada apenas em benefício de um grupo eleitoral. Mesmo os funcionários públicos têm de entender que a fragilidade da economia portuguesa lhes pode voltar a cair em cima. Já se esqueceram do que aconteceu ao aumento salarial de 2,9% decretado pelo governo de José Sócrates em 2009? Resultou em cortes salariais de 3,5 a 10% dois anos depois. Quem tudo quer tudo perde. Seria de esperar que as diferentes corporações e as pessoas que delas fazem parte tivessem memória, mesmo que a memória seja curta, não há como ter esquecido o que aconteceu no início desta década.
Se é verdade para a generalidade dos portugueses que, reposto o que foi cortado nos salários e aliviado o IRS, é obrigatório repor igualmente o investimento nos serviços públicos, esta necessidade deveria ser por maioria de razão verdade para os trabalhadores do setor público. Recuperado rendimento, para um professor, antes de ganhos extraordinários no vencimento, deveria importar a condição da escola em que exerce a profissão. Igual para um médico ou para um enfermeiro, para um polícia ou um militar, para todos os que à boleia de um aparente sucesso dos professores se preparam para lutar pelo que julgavam perdido e entendem ser justo. O que sabemos é que os salários no setor privado caíram muito e tardam a recuperar, enquanto no setor público já recuperaram e tendem a crescer, face ao que existia no início da crise.
Terá o governo de António Costa capacidade política para lutar por um país mais justo? Para fazer o que diz e impedir que os recursos disponíveis sejam todos para quem trabalha no Estado? Não se trata de melhorar o vencimento dos trabalhadores do setor privado, mas de melhorar os serviços públicos que são pagos com os impostos de toda a gente, do privado e do público.

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Em Abril de 2015, por ocasião do 10.º aniversário da Fundação EDP, o então primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, afirmava que Portugal "precisa de investimento externo como de pão para a boca". Não foi a primeira nem a última vez que a frase seria usada, mas naquele contexto tinha uma função evidente: justificar as privatizações realizadas nos anos precedentes, que se traduziram na perda de controlo nacional sobre grandes empresas de sectores estratégicos. A EDP é o caso mais óbvio, mas não é o único. A pergunta que ainda hoje devemos fazer é: o que ganha o país com isso?

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As cimeiras do G20 foram criadas para compensar os fracassos das Nações Unidas. Depois da cimeira da semana passada na Argentina, sabemos que o G20 dificilmente produzirá milagres. De facto, as pessoas sentadas à mesa de Buenos Aires são em grande parte responsáveis pelo colapso da ordem internacional. Roger Boyes, do Times de Londres, comparou a cimeira aos filmes de Francis Ford Coppola sobre o clã Corleone: "De um lado da mesa em Buenos Aires, um líder que diz que não cometeu assassínio, do outro, um líder que diz que sim. Há um presidente que acabou de ordenar o ataque a navios de um vizinho, o que equivale a um ato de guerra. Espalhados pela sala, uma dúzia de outros estadistas em conflito sobre fronteiras, dinheiro e influência. E a olhar um para o outro, os dois arquirrivais pretendentes ao lugar de capo dei capi, os presidentes dos Estados Unidos e da China. Apesar das aparências, a maioria dos participantes da cimeira do G20 do fim de semana não enterrou Don Corleone, mas enterrou a ordem liberal."

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nuno camarneiro

Amor em tempo de cólera

Foi no domingo à tarde na Rua Heliodoro Salgado, que vai do Forno de Tijolo à Penha de França. Um BMW cinzento descia o empedrado a uma velocidade que contrariava a calidez da tarde e os princípios da condução defensiva. De repente, o focinhito de um Smart vermelho atravessa-se no caminho. Travagem brusca, os veículos quedam-se a poucos centímetros. Uma buzinadela e outra de resposta, o rapaz do BMW grita e agita a mão direita à frente dos olhos com os dedos bem abertos, "és ceguinha? És ceguinha?" A senhora do Smart bate repetidamente com o indicador na testa, "tem juízo, pá, tem juízo". Mais palavras, alguma mímica e, de repente, os dois calam-se, sorriem e começam a rir com vontade. Levantam as mãos em sinal de paz, desejam bom Natal e vão às suas vidas.

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Joel Neto

O jogo dos homens devastados

E agora aqui estou, com a memória dos momentos em que falhei, das pancadas em que tirei os olhos da bola ou abri o cotovelo direito no downswing ou, receoso de me ter posicionado demasiado longe do contacto, me cheguei demasiado perto. Tenho a impressão de que, se fizer um esforço, sou capaz de recapitular todos os shots do dia - cada um dos noventa e quatro, incluindo os cinco ou seis que me custaram outros doze ou treze e me atiraram para longe do desempenho dos bons tempos. Mas, sobretudo, sinto o cheiro a erva fresca, leite morno e bosta de vaca dos terrenos de pasto em volta. E viajo pelos outros lugares onde pisei o verde. Em Tróia e na Praia Del Rey. Nos campos suaves do Algarve e nas nortadas de Espinho e da Póvoa de Varzim. Nos paraísos artificiais de Marrocos, em meio da tensão competitiva do País de Gales e na Herdade da Aroeira, com os irmãos Barreira e o Maurício, e o Vítor, e o Sérgio, e o Abad, e o Rui, e todos os outros.

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Os computadores, sobretudo os pessoais e caseiros, também nos trouxeram isto: a acessibilidade da "memória", através do armazenamento, cronológico e quantificado. O que me permite - sem esforço - concluir, e partilhar, que este é o meu texto número 500 no Diário de Notícias. Tendo trabalhado a tempo inteiro e colaborado em muitas outras publicações, "mais do que prometia a força humana", nunca tive, em quatro décadas de peças assinadas, uma oportunidade semelhante de festejar algo de semelhante, fosse pela premência do tempo útil sobre o "ato contemplativo" ou pela velocidade inusitada com que ia perdendo os trabalhinhos, nem por isso merecedores de prolongamento do tempo de "vida útil". Permitam-me, pelo ineditismo da situação, esta rápida viagem que, noutro quadro e noutras plataformas, receberia a designação (problemática, reconheça-se) de egosurfing.