Ministro cá e presidente lá

Não vale a pena embandeirar em arco com a possibilidade de Mário Centeno ser eleito presidente do Eurogrupo. Experiências passadas (Durão Barroso na presidência da Comissão Europeia) já mostraram que ter um português em lugar de relevo não resulta em ganho direto para o país. Na verdade, se assim fosse, significava que não estava a cumprir o cargo. Se lá chegar, estará lá em nome de todos e obrigado a fazer cumprir uma vontade consensual. É claro que será prestigiante para o próprio, para o governo a que pertence e para o país. Mas não é muito mais do que isso.

A mim preocupa-me que o ministro das Finanças, que ganhou, por mérito próprio, um grande peso político no governo, esteja de abalada neste momento. Eu sei que ele não vai deixar o governo e emigrar, será ministro cá e presidente lá. Terá de dividir a sua atenção entre a gestão financeira do país e a coordenação das políticas económicas dos países pertencentes à zona euro. Se a vida dele já só era trabalhar como ministro, como poderá manter a eficácia se agora tem dois trabalhos?

Preocupa-me porque todos sabemos que as segundas partes das legislaturas são sempre mais propensas a disparates. Os portugueses já ouviram muitas vezes falar de eleitoralismo, é quando se gasta a mais para ganhar votos. Há uns tempos, o Presidente da República alertou para esse perigo e ontem pediu que se mantenha o percurso feito até aqui.

A história do tempo congelado nas carreiras da função pública é só um sinal do que pode estar para vir em aumento da despesa pública. O que vale é que as instituições europeias não costumam facilitar e Mário Centeno, presidente do Eurogrupo, não deve deixar a equipa de Mário Centeno, ministro das Finanças do governo português, entrar em roda-viva.

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