Que las hay, las hay

Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay, é um dito popular castelhano cuja origem se perde nos séculos e que se tornou universal. Não se acredita nas bruxas, não há suspensão da incredulidade, há antes uma suspensão da credulidade que, todavia, é confrontada com o facto de elas existirem mesmo que não acreditemos nelas, as bruxas.

Existência que, em si, se configura, portanto, como um real bruxedo.

Gosto da aliteração musical da expressão "que las hay, las hay" que contrasta com a definitiva sentença que o seu significado comporta. Soa a feitiço. Hocus pocus.

Abracadabra... que las hay las hay...

Sempre me fascinou a ideia dos feitiços serem lançados por expressões, frases, palavras. A invocação do poder demiúrgico da linguagem. Uma definição do que é a poesia.

Uma linguagem hoje prosaicamente substituída pelo jargão tecnológico: os códigos, as palavras-passe, o reconhecimento de voz...

No mundo mágico da tecnologia cada novo prodígio tem o seu secreto (encriptado) algoritmo.

E no entanto, no entanto... são da literatura e da arte os feitiços que mais fundo nos enfeitiçam.

Não faltam canções a celebrá-lo. E a celebrar a sedução ou a revelação do amor ou da beleza, de que a arte é uma declinação.

Cole Porter resumiu a ideia numa canção perfeita, You Do Something To Me, onde se canta "Let me live "neath your spell/ Do do that voodoo that you do so well".

Este é o feitiço que transforma as pessoas comuns em pessoas encantadas, espécie de bruxaria sem bruxas.

Mas as bruxas propriamente ditas já não são o que eram.

Já não são necessariamente as bruxas de MacBeth ou a da Branca de Neve.

No filme Annie Hall, a personagem de Woody Allen confessava que em miúdo, ao contrário dos outros rapazes, a personagem por quem ele estava caidinho (grande expressão) era a rainha má.

As personagens torturadas, os vilões, os maus da fita, ou as más da fita, as mazonas, são normalmente muito mais sedutoras do que as belas adormecidas ou as princesas imaculadas.

Uma das minhas primeiras paixões platónicas não foi uma bruxa má, mas era uma feiticeira: Samantha, a protagonista da série Bewitched, um grande clássico da televisão americana que em Portugal passou nos anos sessenta da minha infância com o título Casei com Uma Feiticeira.

Criada por um brilhante argumentista de comédia de televisão, Sol Saks, e protagonizada por Elizabeth Montgomery, Bewitched era o retrato de uma típica família branca da classe média suburbana daquele tempo de consagração sem culpa da sociedade de consumo e do modelo de felicidade que ela prometia.

Samantha era a dona de casa perfeita e estereotipada, exceto pelo facto de ser uma feiticeira. E de pôr em prática os seus poderes sobrenaturais de uma forma muito particular: torcendo o nariz (situação sempre acompanhada para o espectador por um som tilintante característico).

Anos depois, chegaria todo o imaginário gótico (ou neogótico, uma derivação da literatura do género) e conquistaria grandes territórios da cultura popular com todo o seu frenesim de efeitos e as suas variações mais ou menos infantilizadas:

Das bandas de heavy metal aos super-heróis, vilões e demais criaturas das trevas e afins da banda desenhada, do cinema, das séries, dos jogos de vídeo... Do Harry Potter (provavelmente pela primeira vez imaginado por Joanne, uma professora de Inglês, algures na cidade do Porto) às últimas bruxarias da inteligência artificial (neste momento a serem congeminadas em parte incerta um pouco por todo o lado)...

Eu continuo a lembrar-me de Samantha. A sua versão aparentemente domesticada da figura da bruxa, a sua elegante subversão da ordem estabelecida, a sua graça e, acima de tudo, a maneira como ela fazia aquilo com o nariz, encantou o rapazinho que eu era e deixava-o hipnotizado em frente àquela televisão a preto e branco naquele país distante que é para sempre a nossa infância.

Acredito que esse feitiço ainda não se desvaneceu completamente.

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