Falta-lhes um Kadhafi

Intervenção da NATO, ditador morto, embaixador americano assassinado, aviões egípcios a bombardear em retaliação pelos cristãos coptas degolados, governos concorrentes em Tripoli e Tobruk, desembarque na capital de um primeiro--ministro apoiado pela comunidade internacional, ameaça dos jihadistas de usarem o país como base de ataque à Europa.

Os últimos cinco anos na Líbia têm visto uma sucessão de acontecimentos sem paralelo nos outros países da Primavera Árabe, basta pensar que o tunisino Ben Ali está no exílio, o egípcio Mubarak vive num hospital militar à espera de uma decisão final da justiça e o iemenita Ali Saleh até apoia um dos lados na guerra civil. Só Kadhafi foi morto, com as imagens da captura em outubro de 2011 a correr mundo, como mais tarde as do seu cadáver.

Ora, é o legado de Kadhafi que explica muito do que se passa hoje na Líbia. E também a forma como a Primavera Árabe tomou lá proporções inesperadas.

Jovem militar que derrubou a monarquia em 1969, Kadhafi conseguiu unificar as tribos e clãs do país ao longo de quatro décadas. Para isso muito ajudou o petróleo, com os lucros a serem investidos com sabedoria suficiente para fazer da Líbia, em vésperas da rebelião iniciada em fevereiro de 2011, o país africano mais bem posicionado no índice de desenvolvimento humano da ONU. Morto Kadhafi, os líbios redescobriram velhos ódios, mais dentro da maioria árabe muçulmana sunita do que entre esta e as duas minorias que contam, os tuaregues e os tubu (negros do deserto). Hoje, o país está retalhado, com milícias rivais a controlar cidades e pedaços de território e só mantendo uma vaga obediência a um dos três governos que disputam a legitimidade para controlar o Estado.

Admirador do egípcio Nasser, Kadhafi rompeu com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, flirtou com o bloco comunista, patrocinou o terrorismo, fez-se rei dos reis de África e, num volte-face inspirado pelo destino do iraquiano Saddam, reconciliou-se com o Ocidente, aceitando mesmo as responsabilidades pelo atentado de Lockerbie em 1988 .

Em 2007, um Kadhafi já reabilitado instalava tenda em Paris para visitar Sarkozy; e pouco depois recebia em Tripoli os primeiros-ministros português e grego em busca de investimentos num país que possui as décimas maiores reservas de petróleo do mundo. Em 2010, as petrolíferas preparavam o regresso em força à Líbia e a União Europeia negociava um acordo com Kadhafi para travar a imigração ilegal. Mas prova de que o ressentimento contra o líder líbio nunca desapareceu foi a forma como França e Reino Unido se juntaram para convencer os Estados Unidos a participar num ataque que salvasse a rebelião nascida em Bengasi. E com certa surpresa, até obtiveram aval da ONU. Hoje, Obama acusa os europeus de aventureirismo. Ao ditador Kadhafi sucedeu a lei do mais forte, a proliferação de milícias jihadistas e até a implantação em Sirte de um grupo obediente ao Estado Islâmico.

Líbia, velho nome grego recuperado pelos colonizadores italianos que no início do século XX tomaram ao Império Otomano a Tripolitânia, a Cirenaica e o Fezzan, três províncias forçadas a ser um país. Um rei, Idriss, saído de uma confraria religiosa, como cimento da unidade a partir da independência em 1951. Um coronel de origens beduínas, saído das fileiras do exército, como unificador nacional desde o golpe de 1969. É óbvio que falta hoje um líder à nova Líbia, que não tem de ser nem monarca nem revolucionário, mas seja capaz de unir tribos e clãs, sossegar tuaregues e tubus, e reconstruir um país que produz 400 mil barris de petróleo/dia quando tem potencial para cinco vezes mais.

Será Fayez el-Serraj, o novo primeiro-ministro, essa figura? Filho de um antigo ministro da monarquia, engenheiro que chegou a trabalhar para o regime de Kadhafi mas sem cargos políticos, parece ser um homem escolhido por desagradar menos. É duvidoso que tenha sucesso.

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