Sócrates: quem ficou refém de quem

Ler as 4000 páginas da acusação da Operação Marquês exige, além de paciência, também algum estômago. O documento inclui algumas narrativas sobre determinados processos decisórios que, sem exagero, são coisas de vómito.

Uma dessas narrativas é sobre a forma como o consórcio ELOS (em que participava o Grupo Lena) ganhou o concurso para a construção do troço de TGV Poceirão-Caia. O que o MP diz é que o consórcio ganhou 149 milhões de euros porque, após a decisão do júri, foi acrescentada no contrato de concessão uma norma determinando que o consórcio seria indemnizado em caso de visto prévio negativo do Tribunal de Contas (o que aconteceu). Portanto: 149 milhões sem construir um centímetro de linha. A decisão está em recurso.

O que a narrativa do MP também permite é chegar-se à conclusão de que, afinal, pode não passar de um mito a ideia segundo a qual o poder político está, em Portugal, refém do poder económico. Na verdade, o caso TGV relatado na Operação Marquês (e outros) revelam precisamente o contrário: uma economia privada rentista que, mesmo sendo aparentemente poderosa, na verdade pedincha favores ao Estado para sobreviver (e não foi preciso a acusação a Sócrates para sabermos como Ricardo "Dono Disto Tudo" Salgado precisava do governo para manter a PT sob seu controlo, impedindo que fugisse para a Sonae). Esta necessidade conjugada de empresas privadas dependentes do Estado com um primeiro-ministro descrito pelo MP como corrupto é tudo o que se precisa para termos um caso que dá voltas ao estômago.

Na verdade o que se passa é o contrário: um poder económico refém de um poder político com poder a mais e, sobretudo, poder a mais fora de qualquer controlo em tempo real (o Tribunal de Contas só atua a posteriori).

O argumento de políticos de que estão reféns do poder económico não é mais do que uma desculpa para justificar a sua incompetência e/ou passividade. Não é por acaso que quase não há denúncias de políticos a queixarem-se de terem sido alvos de tentativas de suborno por agentes económicos (lembro-me de um único caso, o do vereador da CML José Sá Fernandes). Se fossem as "vítimas" da corrupção não se queixariam mais?

Convenhamos: a Operação Marquês arrasa com a ideia de que é possível separarmos a ideia de corrupção da ideia de investimento público. E quanto a um caminho alternativo estamos totalmente às escuras.

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