A descoberta do homem na obra de João Tordo sem se deixar manipular

A melancolia talvez seja o sentimento que em muito atravessa o novo romance de João Tordo, um dos escritores da última geração mais teimoso na produção literária. Que não se revela em cada novo livro com uma lombada média, antes espessa, de modo a conter quinhentas páginas. Saído de uma Trilogia dos Lugares sem Nome, onde a intemporalidade e uma ausência de marcos geográficos aliviavam a preocupação de perceber os contornos terrestres da obra, Tordo entra agora num mundo de duas histórias paralelas que se localizam em Portugal e no Japão. Este um destino que a dada altura sempre fascina os criadores e que se dissimulou tão bem nos escritos de Camilo Pessanha, o nosso oriental mais fatalista.

Ensina-me a Voar sobre os Telhados é mais um passo nos vários estágios da carreira do escritor. Longe está a descoberta do seu território em O Livro dos Homens sem Luz (2004) e Hotel Memória (2007). Ou do fascinante As Três Vidas (2008), que lhe valeu e bem o Prémio José Saramago. Depois, um dos seus mais interessantes romances, O Bom Inverno (2010), demasiado incompreendido na altura pelos que se confrontavam com um voo de balão que era também uma subida estratosférica no seu processo criativo. Segue-se um trio de romances por aprofundar, Anatomia dos Mártires (2011), O Ano Sabático (2013) e Biografia Involuntária dos Amantes (2014), que avisavam a exigência de uma reorientação no percurso, que surge com a trilogia referida no início. O que é oferecido ao leitor em O Luto de Elias Gro (2015), O Paraíso segundo Lars D. (2015) e O Deslumbre de Cecília Fluss (2017) não indiciava de forma total o que estava para vir neste seu último romance, mas já exibiam uma narrativa com um cunho muito próprio e um dos registos mais pessoais e intensos desta geração, em que faltam algumas obras definitivas para a história da literatura portuguesa entre tanta quantidade.

Se houver um traço que ressalta na leitura deste Ensina-me a Voar sobre os Telhados pode dizer-se que é um dos que mais povoam o trabalho de muitos dos grandes escritores: a melancolia perante a vida e como forma de vida. Bem como uma construção memorialista dos protagonistas, que lhes dão a espessura suficiente para o leitor se identificar com eles ou, pelo menos, perceber, que no caso dos dois protagonistas deste romance são matéria humana que pode ser moldada em parágrafos como se houvesse a reconstituição do genoma da espécie.

Ao colocar duas vidas em alternância neste romance, João Tordo vai em busca daquilo que pode ser uma base comum entre as diferentes sociedades, mostrando que existem perspetivas mais comuns apesar do seu distanciamento e formato civilizacional que à partida pouco pareciam poder ter em comum. Tanto que se pode pôr a seguinte questão: somos assim tão estranhos uns aos outros quando nascemos em Portugal e no Japão?

A resposta vai sendo dada pelo narrador português e pelos proscritos japoneses, numa profusão de sentimentos que João Tordo é capaz de elaborar como poucos dos seus colegas de escrita. Sem se errar muito, é neste autor que estão a encontrar-se as melhores construções de personagens, com uma especial predileção pela metade masculina da população mundial. Opção que parece estar fora de moda num tempo em que a opinião é mais manipulada do que sustentada, mas que Tordo é capaz de sustentar sem se distrair com a manipulação.

Ensina-me a Voar sobre os Telhados
João Tordo
Ed. Companhia das Letras
488 páginas
PVP: 18,80 euros

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