Diz-me quem admiras

Mozart venerava Joseph Haydn, figura fundamental na história da música, como os epítetos "pai da sinfonia" e "pai do quinteto de cordas" atestam.

Einstein idolatrava James Maxwell, considerado o maior cientista no período entre Newton e o génio de Ulm, a quem a humanidade deve as equações gerais da eletricidade e do magnetismo.

Pelé reverenciava Zizinho, conhecido por Mestre Ziza, por jogar por meio-campo e ataque, cruzar, cabecear, chutar e driblar na perfeição e ainda "pintar obras de arte com os pés na imensa tela do Maracanã", como descreveu o italiano La Gazzetta Dello Sport, nos anos 1950.

Pelé, Einstein e Mozart foram grandes não apenas pelo seu génio mas também pelo brilhantismo das suas referências.

O que dizer então de quem tem como ídolos uma galeria de torturadores, ditadores, homicidas e pedófilos?

Baseando-nos apenas em discursos públicos - será que os privados são ainda mais arrepiantes? -, verificamos que o Messias a quem entregaram a condução do quinto maior e mais populoso país do mundo e oitava economia global é fã, por exemplo, de Brilhante Ustra, chefe da PIDE brasileira.

O presidente da República tem à cabeceira as memórias do torturador acusado de espancar e urinar sobre a militante comunista Criméia Schmidt, então grávida de 7 meses, e de, dada a insistência do casal Amélia e César Teles de não delatar, levar os filhos de 4 e 2 anos do casal para verem os pais serem torturados.

Enfiar ratos na vagina das detidas era um dos expedientes mais comuns "do pavor de Dilma Rousseff", como Bolsonaro resumiu Ustra, na hora de lhe dedicar o voto pelo impeachment da então presidente.

Cortar opositores ao meio com serras elétricas ou queimá-los lentamente com a ajuda de maçaricos foram práticas que terão escapado a Ustra, mas não a Alfredo Stroessner, o ditador paraguaio de 1954 a 1989. Responsável por tornar do ponto de vista económico o seu país num paraíso de contrabando, segundo a Comissão da Verdade do Paraguai, mandou torturar 18 772 pessoas e matar cinco mil civis.

Em paralelo, segundo investigações do Departamento de Memória Histórica e Reparação do Ministério da Justiça de Assunção, violava em média quatro crianças por mês num regime apelidado de "pedofilocracia", conforme relato do The Washington Post em 1977. Julia Ozorio, sequestrada dos pais numa zona rural aos 12 anos e mantida como escrava sexual do ditador por três anos, contou tudo no livro Uma Rosa e Mil Soldados.

Sobre Stroessner, o atual inquilino do Planalto, já eleito, homenageou-o por se tratar de "um homem de visão e um estadista".

Em 2011, um relatório publicado por uma comissão que investiga crimes da ditadura de Augusto Pinochet concluiu que 40 mil chilenos foram torturados ou assassinados. Entre os quais, milhares de mulheres, como o da anónima que relatou em 2004 ter sido obrigada a manter relações sexuais com o irmão, o pai e cães. Mas, para Bolsonaro, já se sabe, "Pinochet devia ter matado mais gente".

Dias depois de o juiz espanhol Baltazar Garzón ter mandado prender o ditador, o então deputado subiu à tribuna da Câmara dos Deputados para perguntar "o que é pior, que o general Pinochet talvez tenha feito no passado, exterminando, matando baderneiros [arruaceiros], ou a democracia no país, que hoje mata milhões pelo descaso?".

Por Pinochet, que está para Bolsonaro como Haydn para Mozart, o hoje presidente chegou a enviar um faxe a Tony Blair em 1998 a pedir a sua libertação depois de o Reino Unido ter mandado prendê-lo. E uma carta de condolências ao neto a propósito do sepultamento do "saudoso general".

O deputado também elogiou na Câmara o peruano Alberto Fujimori por ter imposto um programa de esterilização forçada de 236 mil mulheres. Fujimori é ainda acusado de participação em massacres de opositores e casos de corrupção.

Apesar de hoje os apoiantes de Bolsonaro dispararem um "vai para a Venezuela" a quem criticar o governo, em 1999 o então deputado enaltecia a decisão de Hugo Chávez de domesticar os poderes legislativo e judiciário do seu país, já que, disse ele, "o povo não suportava mais a omissão, a ineficiência e a corrupção que grassa nesses dois poderes".

Eis as referências de quem "governa" o Brasil. Diz-me quem admiras, dir-te-ei quem és.

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