Criança muito pouco moderna

Na escola do meu filho mais novo há dezenas de galochas de vários tamanhos para as crianças calçarem quando chove e passarem o dia a saltar nas poças. Chafurdar mesmo. As crianças da escola do meu filho devem ser as únicas no país que ficam felizes quando chove, as poucas que sabem o irritante que é ter pingos a escorregarem pelas costas abaixo quando abanam o ramo de uma árvore. A minha chega a casa desmaiada de cansaço quase todos os dias. É um regalo. E o mais estranho é que ainda não ficou doente este ano, nem tosse, nem gripe. Pensei em perguntar à pediatra se não era melhor ver o que se passa, tanta falta de ranho pode não ser normal. São as poças, desconfio, tivessem todas as escolas poças chafurdáveis e as urgências estavam às moscas. E o cão? Lá na escola também há um cão que os acompanha nos passeios e que se rebola com eles no meio do chão. Não é um cão, é uma cadela: a Pinha do Pinhão - que é como se chama a escola. Ela lambe a cara da criança, a criança deita-se no chão com ela e puxa-lhe as orelhas, abre-lhe a boca e espreme-a. Ele gosta tanto da Pinha que quer ser cão quando crescer. Antes cão que coelho ou galinha, que também os há no Pinhão. Também alimento mal este meu filho. É o mais novo e o mais novo tem direito a gomas quando vamos ao supermercado, a bolo quando vamos ao café e a um sumo quando não quer uma coisa ou outra. Uma vergonha. Desconfio que a criança já enjoou o açúcar e às vezes pede um croquete ou um folhado de salsicha. Mas isso não lhe dou: bolos, porque as crianças comem bolos assim como as avós bebem chá. Ser conservadora tem as suas consequências: revarica-se com açúcar, não com fritos. Ele está magro. Quer dizer, não está gordo. Come sempre sopa, bebe água às refeições e está sempre a roubar fruta. Ninguém é perfeito. E as horas de sono? Não sei bem. Há noites em que me esqueço de o deitar: o sonso vai para um cantinho brincar em silêncio, a fazer de conta que não existe para não ir para a cama. Às vezes resulta e ele dorme menos do que devia, outras vezes não resulta e vai para a cama a espernear. A minha mãe também diz que ele devia fazer mais jogos didáticos para desenvolver competências e crescer, vá. Pois, concordo. Mas nem eu nem ele temos paciência para jogos didáticos ao fim de um dia de chuva onde se chafurdou na lama. E, mesmo sem lama ou chuva, o que nós gostamos mesmo de fazer ao fim do dia é deitarmo-nos no sofá a ver o Panda. (Experimentem). Uma criança fora do seu temo, este meu filho. Espero que o sal, o açúcar e a chuva assim o conservem.

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O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

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Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

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