O médio desoriente europeu

O problema internacional da Europa não é não ter um telefone (ou vários, em Bruxelas, como agora tem), é não ter força ou influência junto dos seus vizinhos. É por isso que o que se está a passar na Síria tem tudo que ver connosco, europeus, mas nós não temos quase nada que ver com o que seja o remédio. O nosso soft power é manifestamente soft, e não é garantido que seja power. E não há muita maneira de não ser assim. Não temos, e não é provável que queiramos ter, um exército; não temos uma política externa comum relevante, porque temos interesse internacionais divergentes; e há muito que não temos disponibilidade de morrer pela nossa segurança. O que se está a passar no médio Oriente, porém, pode inverter tudo isto.

Logo que a Turquia anunciou a intenção de intervir na Síria contra o curdos, os analistas responsabilizaram, e bem, a retirada americana. Ao abandonar os aliados curdos, fundamentais para a derrocada do Estado Islâmico, os americanos foram pragmáticos de curto prazo. Trump tem um interesse limitado no Médio Oriente e a mesma falta de vontade que Barack Obama já tinha quanto a intervir naquela região. Claro que o petróleo conta, que a crescente influência regional do Irão preocupa, que a Rússia conseguir ser a potência regionalmente relevante ameaça os interesses americanos e que o recrudescimento do terrorismo é sempre uma ameaça para os Estados Unidos. Por tudo isso, a saída da Síria e o abandono dos aliados locais é estrategicamente errada, além de moralmente injusta. Mas Trump não é um visionário da política internacional, e a ética não é exactamente a moeda com mais valor neste mercado. Mais depressa ou mais devagar, os Estados Unidos irão abandonando a sua presença regional. Já se sabia.

Tudo isto justificaria infinitas teses sobre a América, o Médio Oriente e por aí fora. Mas o mais impressionante em todas é a ausência europeia.

Se o Estado Islâmico recuperar força, é na Europa que se vai sentir a sua influência sobre os radicalizados que aqui vivem; se os sírios tiverem de fugir da Turquia e da suposta zona segura que estaria em prepração, e se a Turquia decidir deixar, é para a Europa que virão; se a situação escalar para um regresso da guerra, o fluxo de refugiados sírios retorna às costas europeias. Se a Rússia for o aliado de todos os vencedores, já se sabe de quem todos quererão ser aliados. E quem irão ignorar.

Pode-se ser ingénuo e lamentar, com um utópico encolher de ombros, estas misérias do mundo. Mas a verdade é que a segurança dos países exige objectivos, estratégia e estar disponível para pagar o seu preço. Acresce, ainda, que só há política externa comum quando há uma visão comum das ameças. Curiosamente, ou não, a saída americana, a desordem na Síria, o regresso dos refugiados em massa, o perigo do terrorismo nas ruas europeias, uma Turquia com ambições e uma Rússia em reconstrução na região podem acabar a fazer pela política externa e de segurança europeias mais do que mil páginas de teoria