O inevitável erro chinês

Nas últimas semanas, a desconfiança em relação à China tem crescido. Não é tanto por ter sido ali que apareceu o vírus, nem sequer por uma suspeita de se tratar de erro humano. A objeção é muito mais sistémica. A reação da China tem exposto uma potência arrogante e agressiva e a natureza autoritária do regime. O convívio, que parecia pacífico, assenta num equívoco. Nosso.

Num primeiro momento, quando o Ocidente achou que o vírus não passava da China, houve solidariedade e admiração. As imagens de milhões de chineses confinados puseram-nos, talvez pela primeira vez, no lugar deles. Sentimo-nos iguais e imaginámo-nos naquela situação (sem chegar a perceber que em breve estaríamos). A história do hospital construído em uma semana gerou admiração.

Foi preciso os hospitais de Itália colapsarem para que o resto da Europa reconhecesse a ameaça do vírus e percebesse o que se estava a passar.

Veio o momento Chernobyl. Afinal, as notícias da China não eram excessivas e o confinamento forçado não era apenas o exercício despótico de um regime não democrático. Afinal, a China não tinha exagerado, tinha escondido. E as imagens, em algumas redes sociais, de confronto entre cidadãos e autoridades, e entre autoridades de diferentes províncias, fizeram alguns crer que podíamos estar à beira de Tiananmen II. Mas desta vez com possibilidades de sucesso.

Para além de Trump, que por ser Trump nunca é levado a sério, há mais quem esteja a fazer perguntas sobre a China.

A Suécia - há anos em confronto com as autoridades chinesas por causa de um cidadão sueco que se suspeita tenha sido raptado pelo regime - já disse que a União Europeia tem de exigir que se investigue a origem da Covid 19. Mais ou menos o mesmo que Berlim e Camberra também dizem. E nas últimas semanas, os embaixadores chineses junto de França, Suécia, Reino Unido, Países Baixos, Japão, Singapura, Perú, Kazaquistão, Nigéria, Kénia, Uganda, Gana e da União Africana foram chamados pelas autoridades por causa de comentários inapropriados, reprimendas a jornalistas ou pela forma como cidadãos africanos foram tratados na China. A que acrescem as ameaças de retaliação e de recusa de ajuda por parte das autoridades chinesas sempre que alguém menciona Taiwan. De resto, Pequim obrigou a que a Organização Mundial de Saúde desvalorizasse o que Taiwan disse e fez. E que nos teria sido útil a todos.

O governo em Tóquio já criou uma linha financeira para que as empresas japonesas sejam menos dependentes das cadeias de produção na China, e a União Europeia sugeriu aos Estados Membros que protegessem activos relevantes de aquisições por parte de terceiros (da China, leia-se). Só falta financiar essa resistência, claro. Assim como os custos de produzir mais perto.

Visto de fora, parece estranho que a China tenha desaproveitado a ocasião. Podia ter partilhado informação, sido solidária, revelado ser um ator global diferente, mas parceiro. Não aconteceu.

O que antes era sabido, mas desvalorizado, tornou-se motivo de conflito e a resposta das autoridades de Pequim tem acelerado e agravado o processo, mas o problema era anterior. A China é o que é, não o que nos dava jeito que fosse.

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