Vivemos em mundos diferentes

Esta quarta-feira terão passado 18 anos sobre o 11 de Setembro. O que quer também dizer que é preciso ter pelo menos uns trinta anos para ter vivido e entendido o que aconteceu naquele dia.

Assim como, quando em Novembro deste ano celebrarmos os trinta anos da queda do Muro de Berlim, é preciso ter pelo menos uns 40 anos para ter esse como o momento definidor do mundo em que estamos. Da mesma maneira que só quem tenha mais de oitenta anos olha para o fim da IIª Guerra Mundial como o momento que definiu o seu mundo e, em Portugal, por mais que se esforce por perceber, quem tem menos de 55 anos não viu o país mudar com o 25 de Abril.

Como é óbvio, não é preciso ter vivido um momento para lhe reconhecer importância definidora ou perceber o efeito que teve. Mas crescer antes ou depois de um facto, ou tendência, condiciona a perceção do mundo em que estamos e do que são as suas ameaças. E mesmo sabendo que a maioria não é toda a gente, e que face a cada facto há contextos pessoais, ideologia e uma quantidade de outros fatores que condicionam a sua leitura, estas diferenças globais têm consequências.

Quem cresceu politicamente com a memória da queda do muro de Berlim, acreditou na vitória definitiva das democracias liberais, nas virtudes do modelo económico ocidental (capitalista) e até no fim da História. E reconheceu na China de Tiananmen (precisamente no ano em que o Muro caiu) o regime alternativo e indesejável: pobre e violento. Mas não era uma ameaça global como a União Soviética tinha sido.

Quem chegou depois, a ver o mundo definir-se com o 11 de Setembro, cresceu a pensar que o inimigo era o radicalismo muçulmano em forma de al-Qaeda, que o Ocidente era um, mas não uno, e que a segurança não era uma dado adquirido. O tempo do otimismo tinha acabado.

E quem veio depois? Quem nasceu à volta do começo do século XXI vota este ano pela primeira vez não viu Tiananmen, o muro cair ou o 11 Setembro. O que é que os preocupa?

Nos últimos, anos o retrato visível é o de um ocidente desavindo, um modelo económico (que trouxe milhões da pobreza para o consumo mas disso não há memória vivida) que lhes é apresentado como sendo a ameaça à sustentabilidade do planeta, uma economia em crise ou decadente do lado de cá, e uma China onde falta liberdade mas milhões vão prosperando. Quem olha para as notícias dos últimos anos e não viveu no passado, facilmente se convence de que os Estados Unidos de Trump são uma ameaça ao mundo bem maior do que a China de Xi Jinping.

Na Europa, isto quer dizer, entre outras coisas, que há uma enorme geração que não sente a ideia de Ocidente, das virtudes do capitalismo ou das vantagens intrínsecas da liberdade e do perigo que ela corre sempre, como acontece com a maioria dos mais velhos.

Talvez para eles salvar o mundo seja o desígnio, enquanto para outros foi a paz, a vitória sobre a ditadura ou a segurança. Talvez essa geração esteja a começar a redefinir a ideia que a Europa tem de si mesma e, eventualmente, a criar uma identidade europeia, ainda por descobrir. Talvez. Por enquanto, vivemos no mesmo tempo mas em mundos diferentes.