A poderosa Ursula

Quem confunde poder com visibilidade pode achar que a Comissão Europeia tem pouco poder. Ou, pelo menos, menos do que de facto tem. Ursula von der Leyen é, muito provavelmente, uma figura mais reconhecida do que alguns dos seus antecessores, mas manifestamente menos do que os políticos nacionais e alguns líderes europeus. E, no entanto, as propostas que a Comissão faz, para o Parlamento Europeu e o Conselho decidirem, definem o fundamental da política europeia e nacionais. Em tempos normais já era assim, em tempos de pandemia, primeiro, crise económica, depois, ainda mais.

No auge da aflição com a covid, houve quem duvidasse de que a Europa sobrevivesse à pandemia. Ursula von der Leyen percebeu o risco e a oportunidade. Deu a cara por uma proposta que Alemanha e França codesenharam com a sua equipa e garantiu que a Comissão ficava colocada no centro da resposta económica. Parte do reforço do poder da Comissão Europeia foi materializado então.

Ainda que as verbas do Instrumento de Recuperação e Resiliência sejam, fundamentalmente, destinadas a ser utilizadas pelos Estados membros, e que a Comissão exerça pouco poder e vigilância sobre a sua utilização, foi a equipa de Von der Leyen que definiu as guidelines para os planos de recuperação de cada Estado membro e que, no limite, os irá aprovar ou rever. É poder. E há mais.

Enquanto os governos estão atulhados em sarilhos, expostos à degradação política a gerir hospitais, escolas, transportes públicos, obrigatoriedade ou não do uso de máscaras, parcerias com privados, confinamentos e horários de funcionamento de lojas e restaurantes, a Comissão manteve o rumo, fez uso dos poderes que tem e, não tendo de reduzir liberdades ou ser responsabilizada pelas ineficiências dos sistemas de saúde ou dos hospitais, promove legislação, define onde se usa o dinheiro e marca território. E ainda compra as vacinas por todos.

Ursula von der Leyen, sem nunca entusiasmar, sossega. O que é mais do que muitos chefes de Estado ou de governo conseguem, à medida que a situação económica se agrava.

Mais do que as alterações de tratados, muitas vezes são as alterações da realidade política que mudam os equilíbrios, e neste momento a balança pende a favor da Europa, por umas razões, e especificamente de Bruxelas, por outras.

Externamente, o regresso dos Estados Unidos à colaboração com os aliados reforça a relevância de um bloco integrado. À medida que a China aumenta o seu peso económico e político, o Ocidente terá crescentes razões para se aproximar mais. Isso dá importância à Europa enquanto grupo. As dinâmicas internas reforçam Bruxelas e Von der Leyen.

Merkel está de saída. Macron é o mais forte candidato a suceder à chanceler à escala europeia, mas é líder de um país problemático e tem um partido europeu de segunda linha. Isso parece irrelevante em Lisboa, Atenas ou Helsínquia, mas conta em Bruxelas. Itália, Espanha e Polónia, os próximos grandes, estão absorvidos pela pandemia ou reduzidos ao opróbrio.

No seu primeiro ano de mandato, celebrado a 1 de dezembro, a atual Comissão apresentou as grandes linhas da transição verde, digital (em breve), da reindustrialização, das migrações, o relatório anual do Estado de direito. Mas também concretizou algumas, com mais de 130 propostas legislativas.

O poder não é apenas o que se vê, é sobretudo o que se exerce e depende, com frequência, das oportunidades. Ursula von der Leyen tem sabido aproveitar as circunstâncias, ganhar poder para a sua Comissão e definir as regras do jogo. Quem desvaloriza o processo em curso comete um erro.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG