Mau ambiente

Vivemos tempos estranhos. Muito estranhos. Ao observar o dia-a-dia da sociedade, algo que qualquer jornalista tem obrigação de fazer, nota-se uma crispação, ainda que ligeira, mas que não existia antes, nem nos tempos da crise económica.

Na estrada, por exemplo, há cada vez mais condutores a levantar o braço em protesto uns com os outros - e só não o fazem com mais frequência porque, na maioria das vezes, é o mesmo braço que segura um smartphone. Recentemente assisti a uma cena típica de "agarrem-me que vou-me a ele". Só que mais grave, muito mais grave. Um homem vociferava insultos e ameaçava fisicamente uma senhora. Qualquer que fosse a razão do homem, perdeu-a logo ali. Ameaçar uma mulher fisicamente é do mais cobarde que existe. A senhora acelerou o carro e a coisa ficou por ali, felizmente.

Umas semanas antes ia tendo um acidente dentro de um táxi. Um condutor passou milimetricamente pelo carro preto e verde propositadamente, a vingar-se de uma ultrapassagem anterior, feita dentro das leis de trânsito. Não fosse a experiência do taxista e tinha sido o bom e bonito.

Mas não é só na estrada. Nos elevadores, por exemplo, já nem se espera que outros saiam para se entrar. Os empurrões são cada vez mais frequentes. Andamos todos chateados uns com os outros. Apesar do sol, da praia, do vinho, os portugueses, mais concretamente os de Lisboa, estão a ficar impregnados de mau ambiente.

"Há atrasado" escrevi um texto sobre Greta Thunberg, num blogue que partilho com amigos, no qual defendi que todos nós devíamos ter Greta Thunberg na voz. Que aquela miúda sueca com o seu tom acusatório me fez pensar e sentir mal. Que quão ridículo é puxar o autoclismo com água potável ou conduzir um automóvel a diesel todos os dias. Aquela voz jovem, mas poderosa, que afirmou "how dare you" fez-me sentir culpado, e bem. Claro, recebi uma série de comentários acusatórios sobre a defesa da jovem sueca como se defendesse uma figura hedionda. O que se passa connosco? De onde vem tanto ódio. E, pior, para onde vai?

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Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

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Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...