Fiat lux

Da primeira vez que Deus falou foi logo no começo do Génesis, o primeiro dos livros da Bíblia. Disse: "Fiat lux", faça-se luz. Aliás, a frase inteira é: "Faça-se luz e a luz foi feita." Mas isso foi Deus, que é todo-poderoso, a falar e a fazer; dos homens, já me contento com a intenção. Temos, então, um assunto de eletricidade, mas não vou por aí, basta-me assinalar que os políticos querem luz sobre o ex-ministro Manuel Pinho ter recebido mensalmente, enquanto ministro, um salário paralelo. O PSD foi o primeiro a pegar na candeia e pretende que a sua, como foi à frente, alumie duas vezes. Não sei se é bem assim, mas o PS que não se deixasse atrasar! Agora, quando fez bem e também quer luz sobre Pinho, parece seguindo o outro - azarinho... Não me interessa quem fica com a taça, o que me cabe é aplaudir ambos, os dois partidos mais fortes que nos governam há décadas, e que, enfim, perceberam que devem explicações aos cidadãos espantados. Não digo que um é melhor do que outro ou o contrário - esse é o jogo dos vesgos. Quando um Presidente admitiu que ganhou, de um banco trafulha, um lucro de 132%, achei que devia ter havido um "Fiat lux!" generalizado; quando um primeiro-ministro admitiu que um amigo, com empresas que negociara com o seu governo, lhe deu muito, muito dinheiro, achei que deveria ter havido outro "Fiat lux!" generalizado. Note-se, antes, quando as acusações eram anónimas ou endrominadas por fontes obscuras, não me permiti suspeitar do tal Presidente ou do tal primeiro-ministro e publicitar palpites meus. Só declarei a minha desconfiança política quando - quer um quer outro - declararam contra si próprios factos graves a exigir explicações políticas claras. Entretanto, ausências sistemáticas de "Fiat lux!" políticos, acompanhados de processos jurídicos demasiado longos e prenhes de abusos, conduziram-nos ao perigoso clima de suspeição geral. O caso Pinho está integrado num processo jurídico ainda incipiente, a justiça que o resolva com o seu tempo e leis. Entretanto, saltou para o domínio público a suspeita, já referida, do alegado, e vil se for confirmado, pagamento extra do ministro. E, sim, os deputados e o Parlamento devem pôr a pergunta política simples a Manuel Pinho. Precisamos de ver pelo menos essa intenção de pequenina luz.

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Henrique Burnay

Isabel Moreira ou Churchill

Numa das muitas histórias que lhe são atribuídas, sem serem necessariamente verdadeiras, em resposta a um jovem deputado que, apontando para a bancada dos Trabalhistas, perguntou se era ali que se sentavam os seus inimigos, Churchill teria dito que não: "Ali sentam-se os nossos adversários, os nossos inimigos sentam-se aqui (do mesmo lado)." Verdadeira ou não, a história tem uma piada e duas lições. Depois de ler o que publicou no Expresso na semana passada, é evidente que a deputada Isabel Moreira não se teria rido de uma, nem percebido as outras duas.