A circum-navegação de Magalhães e CR7

Um partidazo, diriam os nossos vizinhos, não estivessem tão melindrados sobre assuntos redondos, que metam bola ou circum-navegação. Em todo caso, ontem, um desafio de futebol que ficaria melhor contado por um Antonio Pigafetta, cronista maior que não se ocupa de marinheiros de segunda. Na Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo, ele escreve tanto sobre Sebastián Elcano como nos noticiários dos grandes jogos se fala do suplente que só salta do banquinho nos últimos três minutos para o grande goleador ter a apoteose. Mas, a Fernão de Magalhães, Pigafetta tratou-o como a um grande capitão se deve: "Cálculo e coragem", definiu-o assim.

Por falar nisso, cálculo e coragem teve Cristiano Ronaldo no jogo de ontem, Juventus-Atlético de Madrid. Com ele, o Real Madrid foi campeão nos últimos três anos. Com ele, o Real Madrid foi sucessivamente um Magalhães dos relvado. Depois, Cristiano Ronaldo saiu, empurrado, e todos os males do mundo lhe foram imputados - pelos jornais madrilenos, pelos adeptos infiéis e pelo seu ex-clube desagradecido. E, na semana passada, sem ele, o Real Madrid foi desqualificado nos oitavos, saiu num inédito tão cedo...

Com cálculo, o português esperou essa derrota do seu antigo clube. Derrota, palavra que também significa, em navegação, o percurso percorrido: por estes dias estava já bem claro que o Real Madrid sem Cristiano Ronaldo ficou sem direção, sem o livro de anotações que todo navio deve ter. Sem capitão! Pois bem, agora que isto era visível para todos, incluindo os ingratos, ontem, no jogo com o Atlético de Madrid, também para a mesma fase de oitavos da Champions, ele voltou a ser um CR7 superlativo.

Começou por anular o 0-2 que trazia de dívida. E em dramático penálti, nos últimos minutos, teve a coragem de ser ele a marcar, e marcou o 3-0. E vai em frente como os clubes que lhe dão o comando. Cálculo e coragem, como deve ser um capitão a sério. Olhem, outro que podia cronicar o jogo de ontem: Stefan Zweig, autor de Magalhães, o Homem e o Seu Feito (não procurem, o grande vienense não gastou latim com o tal Elcano).

Este meu texto pretende, sim, que Cristiano Ronaldo, além dos seus três magníficos golos, ontem pôs no lugar o seguinte elenco de zarzuela barata: o Elcano da liguilha, o jornal ABC dos analfabetos e as espanholas Reais Academias, a de História e a de Bernabéu. Sim, estou assumidamente de má-fé. Mas a grande Espanha, onde até os cavaleiros da triste figura são grandes, merece que alguém a previna quando é mesquinha.

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