Qualquer dia é proibido um homem dizer olá a uma mulher

É isso mesmo que se quer: que os homens reprimam os seus comportamentos naturalizados e pensem sobre o que é ou não adequado dizer ou fazer a uma mulher. Que se assustem com as possíveis consequências; que tenham medo de causar medo.

"Desde cedo, tinha para aí 12 anos, que, apesar de nunca ter sido muito bonita e até usar uns óculos enormes, se metem comigo na rua. Depois percebi que não era por ser bonita, é por ser mulher. É a cultura do machismo que há, a de que as mulheres servem para os homens. E estão habituados a que ninguém os enfrente."

Inês Tavares tem 18 anos e estuda Gestão Hoteleira no Porto. É uma das raparigas que entrevistei para a reportagem anteontem publicada no DN sobre assédio sexual a adolescentes e cujo testemunho não usei por falta de espaço.

Marta, 17 anos, aluna do 12º ano de Ciências e Tecnologia em Aveiro, é outra das entrevistadas não citadas. "Aconteceu-me a partir dos 13,14. Sinto-me sempre desconfortável na rua, e quando passo por um grupo de rapazes ou num local de construção estou sempre a mentalizar-me, sempre na defensiva, a ir com calma para não mostrar fraqueza. Quando se metem comigo às vezes penso que sou eu que faço alguma coisa, que a culpa é minha. Mas depois penso que sou uma rapariga normal e que o problema é o de quem acha normal fazer isto. E não acho que tenham algo em mente, que queiram alguma coisa comigo. Não têm um objetivo. Os homens fazem isto porque sempre viram ser feito. É uma questão social e cultural."

Como Inês, da mesma idade e também no 12º, de Santa Maria da Feira: "Acontece desde os 13/14. Geralmente são homens mais velhos. Sinto desconforto e muito nojo. Tento tapar o meu corpo com a mala quando ando na rua. Acho que o melhor é não reagir, se disser "não faça isso" podem ficar agressivos. É algo que está enraizado. A sociedade aceita o assédio do sexo feminino, tem a ver com a forma como as mulheres são encaradas, como objetos, apenas valendo pelo aspeto físico."

De todas as raparigas com quem falei, e que chegaram a mim através de um apelo no Twitter (no qual disse apenas que queria falar com miúdas dos 12 aos 18, sem especificar assunto) quer diretamente quer através das mães e pais e professores, as únicas que me disseram não ter sofrido assédio masculino foram as mais novas, com 12 e 13, e não todas. Ainda assim, algumas referiram ter sido importunadas por colegas na escola, com os famosos "apalpões", espécie de iniciação infantil à condição do corpo feminino como "propriedade pública."

"Os meus pais não precisaram de me ensinar a não tocar num rapaz sem autorização dele: é de senso comum." É Inês quem o diz, mas o senso comum parece ser o avesso dessa noção de respeito básico que todos deveríamos partilhar: quando em Portugal, entre 2011 e 2015, foi debatida a criminalização da importunação sexual verbal (a do contacto físico indesejado, vulgo "encosto" e "apalpão" ocorreu em 2007) a ridicularização e a menorização do tema imperaram. E imperarão ainda - a avaliar quer pelo que se conhece da jurisprudência (quando o Tribunal da Relação de Coimbra decreta, em 2016, não ser crime um homem de 65 dizer a uma miúda de 10 "pequenina eu quero foder-te" estamos conversados) quer pela ausência de discurso e prática institucionais, nomeadamente nas escolas, em relação ao assunto --, apesar de a formulação de "propostas sexuais" ser crime há dois anos.

Aliás, mesmo ante a evidência estatuída na reportagem há quem se encarnice em negar que o assédio sexual de homens sobre as mulheres é estrutural na sociedade portuguesa e que o facto de começar tão cedo demonstra que se trata não de qualquer "tentativa de sedução" ou de "relacionamento entre iguais" mas de um ritual de iniciação, uma programação destas para a submissão, a inferioridade e o medo e para a ideia de que o aspeto físico é o seu valor mais importante, aquele que determina a sua relação com o mundo. E, não menos importante, uma programação para o silêncio, para a não reação: o ditado "mulher honesta não tem ouvidos" aí está para o atestar.

Daí que quando vejo gente queixar-se, na discussão desta reportagem, da campanha me too (eu também) e da onda de denúncias de assédio sexual que assola o meio de entretenimento e das celebridades nos EUA (e não só), de "exagero" e "histeria", e comentar "qualquer dia um homem não pode dizer olá a uma mulher", "vão proibir os elogios às mulheres?", "um homem já não sabe o que pode fazer", sorrio. Porque sim, é isso mesmo que é preciso: que os homens reprimam os seus comportamentos naturalizados e pensem sobre o que é ou não adequado dizer ou fazer a uma mulher. Que se assustem com as possíveis consequências; que tenham medo de causar medo. Que percebam que não, não podem fazer e dizer tudo o que lhes ocorre, e que essa noção, além de sublinhada na lei, deve ser explicitada na escola - e desde cedo, porque é muito cedo que começam os danos.

E se os testemunhos das minhas entrevistadas me entristecem terrivelmente por perceber que tão pouco mudou desde que na idade delas passei pelo mesmo, alegram-me e enchem-me de esperança por perceber que o seu discurso demonstra consciência e revolta, que acabou o tabu: falam com os pais e amigas e amigos e até professores sobre o assunto e quiseram falar ao DN. Que a programação para a "descidadania" que sofrem desde crianças está a ser combatida, que o ativismo feminista está a dar frutos. Miúdas, que orgulho. E muito muito obrigada.

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