Homens, temos que falar

Tem sido divertido ver articulistas nacionais a ridicularizar a proposta de lei sueca que afasta a necessidade da prova de violência no crime de violação, sem se darem conta de que Portugal já o fez.

Esta semana, um amigo que tem uma crónica perguntou-me sobre o que havia de escrever. "Escreve sobre o #metoo", disse-lhe. "Cada vez mais acho que os homens não devem falar sobre isto. Falta-nos a experiência", respondeu. Ora, percebendo o que ele quer dizer, não concordo. É preciso que os homens falem disto - entre si e connosco, mulheres.

Claro que um homem não tem a experiência de ser mulher, nem uma mulher a de ser homem. Mas só podemos avançar tendo em consideração a experiência uns dos outros. Por exemplo, percebo que é muito inesperado e chocante assistir de repente a uma onda de denúncias de sexismo, assédio e agressões sexuais, na sua maioria de mulheres contra homens, ver tanta coisa que foi durante tanto tempo considerada normal ser denunciada como intolerável, abusiva e até criminosa.

E depois há as consequências. Homens despedidos de séries, ostracizados no métier, retirados de listas de candidatos a prémios. Vou dizer uma coisa que já disse várias vezes sobre isto mas que já fui várias vezes acusada de nunca ter dito (sucede-me muito, e o contrário também): não suporto linchamentos. De nenhum tipo. Não gosto daquilo a que os anglófonos chamam "saltar para as conclusões". Não gosto de ir nas correntes. Mas isso, se me leva a não partir do princípio de que os acusados são culpados, também me impede de partir do princípio de que quem os acusa está mal da cabeça, tem agendas de autopromoção ou outro intuito perverso. E convém notar que muitos dos acusados já reconheceram a veracidade daquilo de que os acusaram. Essas assunções demonstram como atitudes criminosas foram normalizadas, banalizadas, naturalizadas, com danos incalculáveis para as vítimas; sobretudo, deve fazer-nos entender que aquilo que está a ser revelado em Hollywood é a ponta de um iceberg.

Quanto ao que deve acontecer aos justamente acusados - que em muitos dos casos, dada a antiguidade dos factos, não poderão ser processados -- confesso, não sei. Porque se me é óbvio que por exemplo apelar para a retirada de obras de arte por serem sexistas (sucedeu com um quadro do francês Balthus, conhecido pela representação de adolescentes/crianças do sexo feminino em situações eróticas) ou afastar alguém da nomeação para melhor ator por ser acusado de assédio - aliás, mesmo que fosse condenado -- não faz sentido, outra coisa é continuar a trabalhar, no cinema, no teatro, na TV, atividades em que se tem de conviver com as pessoas, e muitas vezes de forma fisicamente íntima, com alguém que reconheceu ter um comportamento sexista e abusivo. Como resolver isto? Não sei, lamento. E fico espantada por tanta gente achar que é fácil, alegando que o que interessa é o talento e não se se é boa ou má pessoa, como se a ética relacional não tivesse qualquer importância no meio profissional.

Mas há também, claro, casos como o de Aziz Ansari, acusado por uma mulher que mantém o anonimato de ter insistido em ter sexo com ela durante um encontro, apesar de ela lhe ter dado a entender que (já) não estava nessa. Apontado como exemplo da histeria acusatória do #metoo e denunciado como contraproducente numa série de artigos irritados de mulheres feministas que certificam que nada do descrito pela narradora constitui assédio, obrigou-me a pensar. E se me parece claro que o relato inflige um dano desproporcionado a Ansari, cujo nome não deveria ter sido mencionado, aquilo que é narrado merece reflexão. Porque sinaliza a questão de fundo: a do consentimento - dito de outra forma, o respeito, como uma colega e amiga de Ansari, Amy Shumer, frisou há dias -- nó górdio do metoo.

A discussão sobre o caso Ansari e o #metoo demonstra aliás que muita gente nunca pensou a sério nesta questão e é totalmente ignorante sobre, por exemplo, a legislação em vigor em Portugal, que desde 2015 deixou de considerar que para haver violação é necessário provar que houve violência ou ameaça grave e prevê agora uma pena até seis anos de prisão para quem, sem recurso a violência, constranger outra pessoa a atos sexuais (artigo 164º do Código Penal). Tem sido divertido ver articulistas nacionais a ridicularizar a proposta de lei sueca que afasta a necessidade da prova de violência na violação sem se darem conta de que Portugal já o fez. Igualmente instrutivo é perceber que quem se insurge contra a necessidade de um consentimento claro - ou seja, de respeitar a vontade do outro - parte do princípio de que se trata de uma lei contra os homens. Sendo a lei neutra quanto ao género, tal evidencia a manutenção do arquétipo do homem que "arremete" e "insiste" e da mulher que passivamente "deixa", no qual a ausência de "entusiasmo" delas não é valorizada como um sinal de que podem não querer (ou já não querer).

Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte - não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar, meus senhores?

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Tui

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