O PSD de que precisamos

Mais do que nunca precisamos de um PSD renovado, aberto à sociedade não militante em partidos, com alguma base ideológica e uma estratégia capaz de nos oferecer uma alternativa ao atual governo. Dir-se-á que não vai ser fácil a tarefa do presidente do PSD que vai ser eleito no próximo dia 13, já que é de prever a continuação da boa performance da economia e das finanças públicas neste ano que agora começa.

Mas, por outro lado, são evidentes as contradições na maioria que atualmente nos governa, que não garantem - muito pelo contrário! - uma política de reformas que reforcem a competitividade das nossas empresas, de modo a permitir um crescimento forte que prossiga a convergência com a Europa a que pertencemos.

Daí a absoluta necessidade de um PSD dotado de uma nova liderança que recupere a confiança dos eleitores perdidos e conquiste as novas gerações que não se reveem na esquerda ou estão desinteressados ou desiludidos com a política.

Para que isso aconteça, o PSD tem de assumir uma orientação ideológica distinta da prosseguida pela atual maioria. Terá de nos dizer que papel reserva para o Estado na Saúde, na Educação, na Segurança Social: quer aprofundar a não discriminação e a competição entre o público e o privado nestes setores, ou, como pretendem os partidos à esquerda, reservar essas áreas para o Estado, pondo termo, por exemplo, às parcerias público-privadas na saúde, como defendem os partidos à esquerda do PS e algumas influentes personalidades do PS?

No que toca à política orçamental, admitindo como pressuposto a continuação da redução do défice, este objetivo deve fazer-se mais pelo lado da redução da despesa ou do aumento da receita? O partido está satisfeito com a situação da Justiça, como parece estar a atual maioria, ou tem reformas para melhorar o nível de confiança dos cidadãos no sistema?

E quanto à reforma da Administração, vamos prosseguir a descentralização ou enveredar pela aventura da regionalização?

Tomar posição de princípio sobre estas questões não basta, é necessário que o comportamento do partido seja coerente com a sua orientação ideológica, não repetindo alianças espúrias com as esquerdas do PS, com o objetivo tacanho de combater este adversário.

Outro aspeto que me parece importante referir tem que ver com a metodologia e a linguagem do combate político.
Creio que os portugueses não serão recetivos à violência verbal e ao insulto próprios de forças extremistas. Têm dado constante exemplo de preferirem a moderação; a enorme popularidade do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa mostra que tipo de político tem a preferência dos portugueses. Ou seja, não convém confundir a maioria dos cidadãos com os que destilam as suas frustrações nas redes sociais e nos tabloides.

Acho que o PSD deve assumir-se como partido responsável, com vocação de poder, disponível para servir o interesse dos portugueses, com flexibilidade em função dos resultados eleitorais, sem assumir posições rígidas que inviabilizem soluções no futuro.

Vamos precisar de consensos alargados nas opções a tomar num mundo em acelerada transformação. Flexibilidade é a palavra-chave para ter sucesso. Os partidos que partilham um património comum de ideias - a nossa pertença à União Europeia e à Aliança Atlântica, a forte ligação aos países que falam a nossa língua, o modelo de democracia liberal e economia de mercado que a larga maioria dos portugueses sufragou - esses partidos têm o dever de cooperar para que prosperemos, com justiça social.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

A direita definida pela esquerda

Foi a esquerda que definiu a direita portuguesa, que lhe identificou uma linhagem, lhe desenhou uma cosmologia. Fê-lo com precisão, estabelecendo que à direita estariam os que não encaram os mais pobres como prioridade, os que descendem do lado dos exploradores, dos patrões. Já perdi a conta ao número de pessoas que, por genuína adesão ao princípio ou por mero complexo social ou de classe, se diz de esquerda por estar ao lado dos mais vulneráveis. A direita, presumimos dessa asserção, está contra eles.