Quatro Estrelas Michelin

Foram cinco dias a caminhar entre os 1500 e os 3800 metros de altitude, para cima e para baixo pelos Andes peruanos. À custa de um mosquito e da infeção que causou, os pés já estavam a passar para o azul, depois da vermelhidão e das comichões iniciais. Só doíam ao fim de cada dia do trekking, quando o corpo percebia que era tempo de descansar. A última noite antes de chegar a Aguas Calientes - que hoje se chama Machu Picchu Pueblo - foi passada num baldio de uma pequena aldeia que não sei mesmo se teria nome. Num rés-do-chão com as portas fechadas, Freddy, o guia, montou uma discoteca. A bola de espelhos rodava, a música saía do computador e, na parede, posters de duas impossibilidades por aquelas paragens: Tina Turner e uma praia paradisíaca.

O despertar foi violento, com um abanão da tenda, do cérebro e uma caneca de chá de coca, o inimigo do mal de altitude e do cansaço. De Aguas Calientes, a porta de entrada em Machu Picchu, lembro-me pouco. Tirando o posto médico, a injeção cavalar para matar a infeção e as 12 horas seguidas de sono, quase nada.Às seis da manhã do dia seguinte estávamos a entrar na Cidade Perdida. Em silêncio, mas sem se esconderem emoções, era a primeira vez ali. Um grupo de 20 pessoas esperava o nascer do Sol num dos mais fantásticos locais do planeta. Portugal estava do outro lado do mundo, à beira de outro oceano, num tempo sem redes sociais nem selfies ou chamadas de vídeo.

O sol já queimava quando, por volta do meio-dia, sacámos do farnel. Da mochila saíram duas garrafas de Super Bock XL - novidade naqueles tempos, meio litro de cerveja em recipiente de vidro. Durou pouco, mas soube a muito.

Vinham às costas desde Lisboa, para serem abertas em Machu Picchu. Não vinham sozinhas e ainda bem. Traziam como companheiras de viagem duas latas de atum Ramirez, rainhas das conservas. As mãos estavam lambuzadas de azeite e daqueles pedaços rosados de atum que sabiam a mar. O pão estava rijo. A cerveja estava quente, para lá de morta. Foi um dos melhores almoços da minha vida.

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