Museu do Neorrealismo de Vila Franca de Xira

A 40 minutos de Lisboa, temos de fazer uma visita indispensável. A cidade de Vila Franca de Xira alberga o Museu do Neorrealismo. É um museu, inédito em toda a Península, que põe em destaque esta grande corrente cultural, literária e artística tão essencialmente portuguesa. O museu, de arquitetura moderna, tem linhas limpas e um tamanho acolhedor. Há que estar atento às suas exposições, pois além de serem sempre interessantes, são muito cuidadas, são impecáveis e são acompanhadas de um conjunto crítico importante; o museu conta, além do mais, com um arquivo, centro de documentação e uma biblioteca especializada. Foi memorável uma exposição sobre o pintor brasileiro Cândido Portinari, assim como a dedicada a Fernando Namora. Agora, está instalada uma exposição de Rui Filipe, fechada por causa da pandemia, mas que talvez possamos ver quando acabem ou sejam aliviadas as medidas de confinamento.

Aquilo a que se chama a família artística e literária do neorrealismo surge no final dos anos 30 do século passado. Entre os seus expoentes estavam Carlos de Oliveira, o próprio Alves Redol, vila-franquense que deixou nos seus romances o testemunho do campo ribatejano de há 100 anos e a quem é dedicado o museu, Fernando Namora, Manuel da Fonseca, o escritor e crítico de arte Mário Dionísio e muitos outros.

Para a moda e o cânone atuais o realismo parece algo datado, mas todos os romances são datados, pois pertencem a um tempo e um espaço dados ("datado é qualquer escritor, na medida em que somente pode refletir as experiências do seu tempo"), disse Celso Cruzeiro. Os neorrealistas são por vezes despachados sumariamente como escritores militantes, cuja denúncia social parecia ser o primordial. Foram inclusivamente associados ao comunismo - alguns pertenceram, com efeito, ao PCP -, pretendendo assim desvalorizá-los, o que é notoriamente injusto pois estes escritores foram um marco na literatura meio-amordaçada da época. Com uma escrita depurada e uma grande cultura, deixaram-nos uma obra considerável e interessante. Como é natural, acontecia serem homens de esquerda e, portanto, molestados e perseguidos pelo Estado Novo. Mas era preciso esquivar-se à censura e isso, como se sabe, aguça a criatividade, as canetas e os pincéis. Muitas das suas obras lemo-las hoje com prazer, além de com interesse, pois são de uma plasticidade e de um relevo, de um contraste pouco comuns. Os personagens, as circunstâncias, os lugares e paisagens são o puro Portugal de então, e, às vezes, até de agora.

Não eram intelectuais contemplativos, mas antes o testemunho vivo do seu tempo, de um Portugal onde viviam, trabalhavam e partilhavam as dores e as esperanças do povo. Um Portugal que não terminava no Chiado nem nos salões nem nas tertúlias literárias, um Portugal que não era snob. Nas suas páginas ouve-se o barulho de fundo do país. Felizmente, o Museu do Neorrealismo devolve-nos esses escritores e artistas que escreveram "para a sua época e sobre a sua época"; passada esta, parece que é como se já não fossem necessários. E, no entanto, são indispensáveis para conhecer e para compreender melhor o Portugal do século XX, como o continuam a ser Eça de Queiroz ou Camilo Castelo Branco para o século XIX.

Gostaríamos que em Espanha houvesse um museu com estas características, pois houve uma grande tradição realista, e alguns dos seus mais recentes representantes, como Armando López Salinas, Jesús López Pacheco, Juan Eduardo Zúñiga ou Antonio Ferres- estes dois últimos recentemente falecidos -, deixaram uma obra interessante.

Na pintura de Rui Filipe, agora exposta, mas sem se poder ainda visitar, dominam aqueles cinzentos que seguramente aprendeu com Daniel Vásquez Díaz, o pintor espanhol de quem fora aluno e discípulo. Vásquez Díaz teve uma importante relação com Portugal (ele era originário da província fronteiriça de Huelva), e deixou alguns retratos singulares, como o do marechal Carmona, do grande historiador e médico Reinaldo dos Santos e o de Almada Negreiros, além de umas paisagens da Nazaré e de outros locais portugueses. Os cinzentos de Vásquez Díaz, como os de Rui Filipe, derivam claramente dessa maestria da cor que remonta a el Greco e a quem logo se seguiria Velásquez, meio português.

Em Vila Franca, além das touradas, da visita ao pequeno museu taurino Mário Coelho, do passeio pelo agradável parque junto ao Tejo, há também um grande espaço para exposições como o Celeiro da Patriarcal; em novembro passado tivemos ocasião de ver ali uma formidável exposição sobre as cheias de 1967, aquela catástrofe que, paradoxalmente, seria um despertar da consciência dos estudantes de medicina que chegaram como voluntários para colaborar na mitigação da catástrofe e descobriram como viviam muitos dos seus compatriotas a dois passos da capital. Uma cheia, como as que mencionava Redol, "e aí vinha o troar da cheia a persegui-lo".

Noutro dia, numa dessas viagens por que tanto ansiamos, seguiremos até Alpiarça, no Ribatejo, para visitar a Casa-Museu dos Patudos, a residência de José Relvas construída pelo grande arquiteto Raul Lino. Nessas terras da Lezíria imortalizadas por Alves Redol.

Advogado e escritor espanhol

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