Ao lado de dezenas de pessoas apontámos caminhos para construir um programa desencadeado não por qualquer obrigação regulamentar do partido mas por uma opção de exigência política do candidato. Pensámos que a candidatura de Rui Rio traria um nível de debate muito assente em ideias novas e em propostas originais. Enganámo-nos neste diagnóstico e descobrimos a partir da campanha que fez algumas realidades escondidas que traduzimos aqui..Inicialmente a sua postura indicou-nos rupturas com o sistema e apresentou-nos diagnósticos muito fracturantes seja em relação ao regime, que disse que estava em crise, seja em relação ao partido, que disse correr o risco de desaparecer. O discurso do "novo 25 de Abril", e do "banho de ética", construíram aparentemente a primeira sombra: uma ideia de um candidato de fora do regime, com uma atitude mais arrojada e um estilo providencial e moral. Só aparência. Na verdade, o que concluímos do seu discurso e da sua moção é pouco mais do que um pensamento generalista e analítico em vez de um pensamento estruturado e organizado à volta de medidas concretas, sector a sector, como Pedro Santana Lopes fez nas 221 medidas da sua moção programática..A segunda sombra de Rui Rio esconde uma certa ideia de que quanto menos se conhecer o candidato melhor. Quanto menos falar melhor, quanto menos confronto e debate interno melhor, quanto menos prestar declarações melhor, quanto menos perguntas dos jornalistas melhor. Enquanto Pedro Santana Lopes arranca a promover as virtudes da abertura e da discussão interna, propondo debates pelo país, Rio ridiculariza, depois recusa, teima, atrasa e cria tantos obstáculos que só foi possível realizarem-se três, dois na TV e um na rádio. A ideia com que ficámos é que o terceiro se centrou no presente e no futuro e os primeiros dois centraram-se sobretudo no passado. Acredito que com mais debates, infelizmente inviabilizados por Rui Rio, teríamos mais esclarecimento sobre temas da nossa realidade e que a satisfação dos eleitores seria maior, pois a tendência de fugir do passado seria muito grande, embora talvez não interessasse a Rio. Esta ideia corresponde a puro marketing político na construção de uma aparente personagem, encenada e orientada para cumprir um certo caminho. Aqueles que como Marcelo Rebelo de Sousa (que é só o político da nossa área com maior afectividade com os portugueses) ou Pedro Santana Lopes, que "falam muito" não têm a sobriedade nem o recato deste homem providencial, que se revela à volta de uma certa ideia salvífica, austera e coerente. Uma espécie de não político que aparentemente é como "nós" os portugueses "normais" que detestam os políticos, os "outros". O confronto dos debates fez desabar isto tudo em minutos..A terceira sombra de Rio tem a ver com a construção da sua narrativa de campanha. O que vimos "deste lado" ao termos a sua moção só entre o Natal e a passagem do ano sem dimensão programática - escudando-se até na ideia de que isso contrariava a tradição do partido desde a sua fundação - respondeu a uma estratégia clara: a de privilegiar às ideias a desconstrução do seu adversário como um exercício permanente de dizer "eu não sou Pedro Santana Lopes!", ou seja, a de dizer com base na experiência governativa do PSD de 2004 - que também passou a ser agora uma experiência "só" de Pedro Santana Lopes: "Vejam como correu mal, portanto eu estou aqui, sou a alternativa a isso." Rio apostou numa estratégia de confronto não com o adversário mas com o passado deste, tentando meter-se "fora dele" e chegando até a dar razão a Jorge Sampaio, algo que o PSD nunca reconheceu. Enquanto se discutia o passado de Pedro Santana Lopes, Rui Rio só tinha de produzir narrativa dentro deste contexto até que Santana virou esse passado contra Rio ao revelar a incoerência, a falta de lealdade e a insistência no "dizer mal" de Rio. A revolta de Santana, que a imprensa traduziu num KO, serviu para mostrar o que vale Rui Rio num cenário de pressão alta. .A quarta sombra de Rui Rio tem que ver com a sua natureza tecnocrática e o seu jeito antipolítico, muito reservado mas que veio ao de cima. Enquanto Pedro Santana Lopes mostrou experiência e combate político e consegue em poucos dias construir uma candidatura do zero, Rui Rio não só demorou um ano a prepará-la como depois revela muitas inabilidades. Dois exemplos: a sua apresentação à mesma hora do anúncio da acusação do MP a José Sócrates ou a questão da renovação do mandato da PGR. Conseguiu aqui dizer três (!) coisas diferentes no espaço de uma semana: primeiro criticou severamente; depois disse que estava a falar da globalidade da Justiça e por último disse que afinal era um "não assunto", colando-se ao que Marcelo mandou dizer. Confessou até que quando respondeu não tinha percebido o assunto. Que raio de líder político é este que quer ser líder do PSD? Como iria conseguir competir diariamente no mundo político de Costa e Marcelo? É preciso mais preparação e talento, sob pena de descobrirmos um profundo amadorismo que agora alguns acham que não existe..A quinta sombra corresponde à sua verdadeira ideia do que fazer com o PSD. Depois de omitir na sua moção temas de posicionamento político tão importantes como o que fazer perante a geringonça; as eleições de 2019 e a eleição presidencial, a pressão da campanha obrigou Rio a sair da sombra neste campo, sobretudo depois das acusações de que queria criar um bloco central. Rio não contrariou sequer esta ideia, explicando finalmente a sua visão e pensamento: bloco central numa versão de coligação num contexto de crise profunda, portanto a título excepcional, e apoio a um governo PS caso este ganhe por um voto e precise de maioria no Parlamento. Talvez esta sua posição seja a que afaste mais Pedro Santana Lopes, que escreveu logo na moção que bloco central nem antes nem depois das eleições. Rio clarificou, é certo, mas revelou uma atitude altamente penalizadora para o PSD. Ao declarar já nas directas que viabilizará um governo de António Costa, envia uma mensagem ao eleitorado de que mais do que um moderado não será um líder forte para levar o PSD a ganhar. Não esperem isso. Adianta também o erguer de um bloco central informal, de novo tipo, uma versão corrente para tempos normais. Não vale a pena ao eleitorado oscilante do centro votar PSD, pois, se votar PS, o PSD apoia na mesma. Antes dos eleitores, Rui Rio coloca já o PS no poder. Como é possível os militantes do PSD elegerem um líder com esta estratégia?.Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.Coordenador da Moção e Programa de Pedro Santana Lopes