Aprender

O ritual matinal diário dos pais a levar os filhos pequenos à escola é a mais bela coreografia do mundo. Sempre que levo os meus filhos, fico a observar os outros pais e filhos nas suas danças de separação. Um ritual em que, todos os dias, as mesmas emoções se concentram naqueles minutos ou só segundos. Emoções, todavia, todos os dias, sempre diferentes, temperadas pelas variações e alterações da vida quotidiana, por vezes subtis, por vezes evidentes.

Os beijos, os abraços, as pequenas despedidas, as ansiedades, de uns e de outros, a alegria e os medos, até tudo se dissipar para lá da porta da escola e na cidade. Até à noite, em casa, para de novo na manhã seguinte tudo se repetir.

Depois passam-se dez, doze, quinze anos, eles são adultos e partem para o mundo. Para as universidades onde iniciam o último ciclo da sua formação geral básica, ou para outras atividades ocupacionais, laborais.

O que aprenderam nesses anos? Como se prepararam para o futuro?

Quando vejo os meus filhos e os seus colegas - tal como quando era professor, nas aulas, em frente às turmas - faço muitas vezes o exercício de imaginar como eles vão ser em adultos e o que vão estar a fazer.

Imagino como seria ter sentados, um dia, na mesma sala de aula em que foram alunos os colegas de uma turma, trinta, quarenta, cinquenta anos depois, e confrontar os seus sonhos de crianças e jovens com o que foi a sua vida até esse dia. Não há confronto dramático mais intenso do que o que temos com nós próprios, entre o que imaginámos que podíamos ser e aquilo em que a vida nos tornou, aquilo que somos.

O tempo de aprendizagem deve ser - é - toda a vida. Mas o tempo de escola é estrutural, modelar, decisivo. O que deve ser e como deve ser essa aprendizagem escolar?

A experiência de ter sido professor (de Português, no ensino secundário, durante quase dez anos) ensinou-me muito.

Dei aulas em escolas muito diferentes, em Lisboa ou na periferia de Lisboa, do final dos anos 1980 ao início dos 90: das escolas pequenas do centro, como a Veiga Beirão (do Ateneu), onde iniciei a dita carreira docente, a escolas enormes como fábricas, com turmas de quarenta alunos, como era a Ferreira Dias, no Cacém; de escolas com alunos de famílias da classe média ou média-alta, como a de São Julião, em Oeiras, a escolas com grande mistura de alunos de diferentes proveniências económicas, sociais e étnicas, como a das Olaias.

Fui professor (e também diretor de turma, coordenador da biblioteca, dinamizador de grupos de teatro e revistas da escola) e essa experiência foi das mais compensadoras que tive na minha vida, daquelas em que me senti mais útil para a comunidade.

Mas foi também um trabalho árduo, difícil, desgastante e, muitas vezes, profundamente desmotivante.

Muitas vezes, depois das reuniões de pais para discutir os problemas dos alunos, o que me ocorria era que devia fazer uma reunião com os alunos para discutir os problemas dos pais.

Outras vezes, o que me dava vontade era de discutir os problemas dos professores.

Ser professor não é fácil. Talvez hoje seja mais difícil do que nunca.

Os professores deviam ter melhores condições, claro. Ganhar mais dinheiro, claro que sim.

(Todos devíamos ganhar mais dinheiro. Menos os CEO das empresas onde a desigualdade salarial é gritante e os seus salários insultuosos).

Mas se eu fosse professor hoje, aquilo por que eu mais lutaria era por tempo. Tempo para poder preparar-me melhor para aquilo que é o mais importante: as aulas.

E o que eu mais rejeitaria é a carga burocrática que hoje pesa na vida dos professores. A asfixia administrativa que cerca os professores é inaceitável. E muito prejudicial para o essencial do ato de ensinar: a disponibilidade para o tempo da aula.

Um professor tem de ter tempo para poder preparar esse momento vital e para nele estar totalmente empenhado, focado e concentrado.

Outra questão essencial é a autonomia. De cada escola, na sua especificidade local. E do professor na sua forma de abordar o programa.

Não me esqueço da experiência que tive quando dei aulas noturnas a trabalhadores-estudantes, no Cacém. Homens e mulheres adultos que depois de um dia a trabalhar em oficinas, fábricas, ou outras empresas, como eletricistas, mecânicos e outras profissões de esforço físico, tinham aulas à noite para poderem terminar o então nono ano do liceu e poderem aspirar a uma promoção profissional.

Pelo caminho estava a disciplina de Português e eu como professor. Do programa constavam coisas como Os Lusíadas e a análise dos seus cantos e temas - o Concílio dos Deuses, a influência de Virgílio e da Eneida, a Antiguidade Clássica e o Renascimento, a forma da epopeia, a narração in media res, as estrofes, os decassílabos, etc., etc., etc...

Todas as noites ali estávamos, com eles a cambalear de cansaço, desejosos de ir para casa dormir, e eu a pensar como é que havia de fazer.

Acabávamos por passar dois terços do tempo a falar das mais variadas coisas a propósito de qualquer tema ligado a Os Lusíadas ou a Camões, o que quer que fosse - o país, os velhos do Restelo, o pessimismo, o império, o regresso das pessoas das ex-colónias, perder um olho, ter uma vida miserável e acabar por ser nome de feriado... o que quer que fosse que lhes pudesse interessar. E o outro terço, de maneira muito sucinta e resumida, o que era importante reterem sobre a matéria para o exame, não mais do que coubesse numa cábula.

Não sei se terá resultado (nuns casos talvez, noutros talvez não), mas dei o meu melhor.

Tal como nas outras aulas diurnas, com os jovens, o fiz sempre. Procurando sempre uma forma de os interessar - e se possível inspirar - com matérias que não estavam nos programas curriculares mas podiam ser portas de entrada para o que era necessário aprender.

Podiam ser músicas, filmes, livros, programas de televisão, notícias de jornais, variava muito, consoante as turmas. Mas era sempre qualquer coisa que pudesse despertar neles a curiosidade. Que é o princípio de tudo. A curiosidade pelo mundo e pela sua diversidade. É isso o essencial. E depois dar instrumentos para aguçar essa curiosidade, para a aprofundar. Ensinar a aprender.

Não para ter um emprego - não é para ter um emprego que serve a escola. É para ter uma vida melhor.

Quando penso no meu percurso de aluno desde a escola primária pública na ditadura, com reguadas acompanhadas de rezas à Virgem Maria, ao liceu no PREC, com professores saneados e aulas interrompidas, penso em como sobrevivi a tudo isso e no que ficou disso tudo. Desses programas infindáveis dados incompletamente. Dessas memorizações absurdas que fui obrigado a fazer para ter as notas necessárias para passar e seguir em frente. O que ficou disso tudo?

No meu caso, com honrosas exceções, nunca tive grandes professores, mas tive a sorte de ter os pais que tive e de encontrar nas escolas amigos estimulantes e cúmplices para a vida. Mas no liceu o que aprendi fora das aulas foi o mais importante. Foi um desperdício, quase sempre, o tempo das aulas. E não devia ter sido, não devia ser, nunca.

Como professor terei tido nos anos que dei aulas centenas de alunos. Por vezes sou surpreendido num qualquer sítio por um adulto que se dirige a mim e diz: "Não se lembra de mim, mas fui seu aluno." Por vezes consigo descortinar naquela cara de mulher ou homem adulto a criança sentada à minha frente naquela sala de aula umas décadas antes.

Penso e pergunto sempre: "Serviu para alguma coisa?"

Hoje, quando deixo os meus filhos na escola e fico a ver-nos dançar com os outros pais e filhos a desajeitada coreografia, penso sempre como é impossível saber se o que estamos a fazer é o que é melhor para eles, o que é melhor para o mundo. Se os vai ajudar a poderem ser felizes...

Esta coreografia diária comove-me. É como um bailado sobre a esperança.