Bem-estar psicológico, o parente pobre

A expressão "saúde mental" é indutora de vários equívocos. Quando se escreve saúde mental, lê-se doenças mentais. De imediato, estamos numa leitura estigmatizante do ponto de vista social, e numentendimento médico sobre o sofrimento psicológico. Precisamos de uma mudança de paradigma. Que considere uma política nacional adequada e eficaz para obem-estar psicológico dos portugueses. O último relatório (2019) pré-covid, para a área da saúde mental,intitula-se: "Sem Mais Tempo a Perder". Nem de propósito. E conclui o que já se sabia: não estão a ser postas em prática as recomendações e as necessidades há décadas identificadas. Antes da Covid-19 sabíamos que um em cada cinco portugueses sofrem de perturbações psicológicas. Estas são a primeira causa de anos vividos com incapacidade (20,55%), e são a segunda causa de anos perdidos de vida saudável (11,75%). Sabíamos também que as mulheres portuguesas apresentavam, na europa, o valor mais alto de uso de ansiolíticos e antidepressivos, e os homens portugueses ocupam o segundo lugar no consumo de ansiolíticos e antipsicóticos. Sabíamos também que mais de um terço da população que sofre de perturbações psicológicas não tem acesso a tratamentos e tendem a sobre utilizar, e por consequência, a sobrecarregar os serviços de saúde.

E agora? Alguns dados já são conhecidos: a percentagem dos portugueses em sofrimento psicológico é muito elevada, muito superior quando comparada com o cenário na China; aumentou exponencialmente o consumo de psicofármacos; o número de chamadas para as linhas de prevenção ao suicídio duplicou; alguns estudos referem que populações do meio rural estão a ser mais afectadas psicologicamente. Mais, o desconfinamento vai ser, para muitas pessoas, mais difícil e angustiante. O medo e o stress vão aumentar.Acrescem as angústias de âmbito social e económico. As previsões apontam para a maior crise económica mundial que há memória. Os economistas não têm modelos de referencia para prever e preparar a crise que está à porta. Vai chegar a velocidade alucinante, diz-se. Os maiores índices de desemprego estarão presentes por esse mundo fora. Veja-se os cerca de 30 milhões de pedidos de subsídio de desemprego nos Estados Unidos. Os cidadãos europeus desconfiam da verdadeira união e capacidade de solidariedade da União Europeia. Ao medo do desconfinamento acresce o terror do futuro. A angústia da incerteza do emprego, da sobrevivência das famílias. A pobreza, a solidão e o isolamento drenam-nos psicologicamente. São um vírus invisível. Matam mais do que muitas das chamadas doenças físicas. Se faltar comida na mesa, as pessoas darão prioridade ao bem-estar psicológico? Com a grave crise económica e social o governo terá nas suas prioridades o combate ao mal estar psicológico? Vamos ter tendência a adiar. A não priorizar a área da "saúde mental".

Precisamos, urgentemente, de uma política que considere todos os factores enunciados. Que seja realista em termos das reais capacidades do país, mas também que seja corajosa, no sentido de realizar escolhas políticas transformadoras. Muitas estão identificadas nos relatórios para os planos de saúde mental fechados em gavetas. É preciso recuperar essas recomendações. É necessário um programa de investigação continuado (como foi referido inúmeras vezes, a falta de informação é cegueira). É fundamental reconhecer que os cuidados de saúde psicológica, precisam de ser continuados, e não circunscritos aos primeiros socorros. O SNS precisa claramente de um reforço de profissionais de psicologia e precisa igualmente que outras instituições possam, em parceria, apoiar na fase aguda que se vai seguir. As estratégias de comunicação da entidades de saúde precisam ser claras, objectivas coerentes. É crucial que as empresas e as instituições façam definitivamente uma prevenção, agora intervenção, na área dos apoios psicossociais. É muito importante que cada pessoa, sem prejuízo de todos os desafios que tenha de fazer face, considere o auto-cuidado psicológico e dê prioridade ao seu bem-estar emocional.

Director da Clínica ISPA

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG