A mãezinha de todas as eleições

Na Alemanha vai votar-se neste mês também o futuro dos portugueses

Reduzindo a fórmula ao essencial: quem manda na União Europeia é quem está sentado em cima do saco de dinheiro. Felizmente, para a Europa do Sul a cultura alemã não se impôs em campos como a gastronomia, as regras de convívio social ou a moda: comer salsichas várias vezes por semana, policiar os comportamentos da vizinhança ou usar sandálias com meias são coisas que colidem com a cultura mediterrânica. Já a política financeira alemã impôs-se. A Alemanha tornou-se o vizinho que ganha muito, gasta pouco, não distribui e dita as regras. Quando a família mais rica da aldeia é avarenta e todos lhe devem cada vez mais dinheiro, a coisa tende a não correr bem. Como agravante, a chamada Deutsche Leitkultur (cultura dominante alemã), que é qualquer coisa como um "consenso dos tradicionais valores alemães", está internamente a ganhar terreno.

A relação com o resto da Europa pode mudar com as eleições de 24 de setembro. Não é por a atual chanceler se manter no poder (cenário dado praticamente como certo) que os governantes em Lisboa ou os moradores em Freixo de Espada à Cinta podem pensar que tudo vai ficar igual. Há uma grande questão em aberto: com que partido a CDU, a União Cristã Democrática de Merkel, se irá coligar?

Apesar da popularidade da Mutti (mãezinha) Angela Merkel, como os alemães num raro acesso emocional carinhosamente a tratam, os Cristão Democratas não vão conseguir uma maioria que lhes permita governar sozinhos. Nunca, desde o NSDAP de Hitler, houve um partido que governasse a partir de Berlim sem ser em coligação.

Com o segundo maior partido, o SPD, não se deverá repetir uma grande coligação. O SPD, outrora tão poderoso, está de ano para a ano a perder terreno por se ter colado ao partido de Merkel. Em oito anos, dos últimos 12, foi o parceiro júnior de uma grande coligação e isso não o ajudou a manter a sua identidade à esquerda do centro.

O terceiro partido mais votado a sair destas eleições será a AfD, uma formação de extrema-direita que, intermitentemente, recupera ideias nazis, a que muitos alemães são ainda recetivos. No entanto, a AfD não é ainda elegível para uma coligação.

Restam a Merkel dois dos partidos que virão provavelmente em quarto, quinto ou sexto lugares nas eleições: os liberais do FDP ou os Grüne (Verdes). Se Merkel se coligar com os liberais do FDP, cenário considerado muito provável, a crise na zona euro poderá acentuar-se.

Os liberais querem a Grécia - e por maioria de razão Portugal, onde a dívida pública neste momento já é superior à da Grécia no início da crise - fora do euro e são a favor de uma clara aproximação à Rússia - o que implica um afastamento da UE.

Se Merkel se coligar com os Verdes, a tendência será a oposta: mais UE e maior facilidade em aprofundar as instituições europeias, tão desejadas e apregoadas por Macron em Paris. Já se Merkel tiver de se coligar com ambos, o FDP e os Verdes, o futuro político da UE e de Portugal serão ainda mais imprevisíveis.

A única alternativa a um governo da CDU liderado por Angela Merkel seria uma improvável geringonça alemã com uma maioria parlamentar do SPD em coligação com os Verdes e o Linke (que tem um programa algures entre o PCP e o Bloco de Esquerda).

O desafio para a Alemanha passa sobretudo por decidir entre mais UE ou uma aproximação à Rússia. Alguns grandes do SPD preferem a aposta euro-asiática como o ex-chanceler Schröder. Ainda muito influente, Schröder está prestes a tornar-se presidente do conselho da Rosneft, a maior petrolífera russa, e é amigo próximo de Putin. Já Martin Schulz, o candidato a chanceler pelo SPD, é um europeísta convicto. A chanceler, por sua vez, é atlantista e quer reforçar a União Europeia.

Mas nem tudo é um mar de rosas: Merkel é conhecida por mudar a orientação das suas políticas sem ninguém dar por isso, deixando simplesmente as coisas à sua volta acontecer.

É caso para a UE, a começar por Portugal, suster a respiração: se não houver um aprofundamento da UE para o Atlântico, haverá uma viragem a Leste.

Correspondente do Fer Freitag e colunista do Portugal Post

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