Faz-me falta sentir saudades de casa

É tão estranho isto. A minha casa é o meu espaço. Sou eu e os meus amores que estamos ali, aqui, nos livros, nos objetos, nas fotografias, nos sofás, nas almofadas, nas mantas, nas canecas, na desarrumação, na arrumação. Tenho a sorte de ter uma casa grande e confortável que é uma continuação de mim. Tem imensos defeitos. Coisas que, se pudesse, mudava, mas com as quais vivo bem. Não há lugar onde me sinta melhor. E, no entanto, agora que é nela que passo as 24 horas do dia há três semanas, começo a sentir que me sufoca.

Estes tempos de pandemia estão a fazer de todos nós uns lamechas e autores de livros de autoajuda de trazer por casa (não foi de propósito), mas a verdade é que é quando deixamos de ter aquilo que dávamos por garantido que percebemos como nos era essencial.

A mim faz-me falta a liberdade, o mar, a estrada, os beijos, os abraços, as discussões dos meus pais nos almoços de domingo, as discussões em geral - há semanas que não discuto com ninguém -, a ansiedade de não saber onde andam os meus filhos, as listas de coisas para fazer e o stress dos dias que não chegam para tudo, uma esplanada, o café ou o copo com os amigos e conversas que não envolvam as palavras quarentena, isolamento, covid-19, pandemia e por aí fora, os transportes públicos cheios de gente, a rua sem a sensação de que estamos a pisar terreno minado, pessoas de olhar despreocupado, o barulho da redação, as odiadas Torres de Lisboa, chegar a casa ao fim do dia, cansada, e cair redonda no sofá. Faz-me falta sentir saudades de casa.

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