A importância de se chamar Madonna

Eu não sei quantos carros tem a Madonna. Quanto custa a casa que comprou ou que investimentos está a pensar fazer. Não sei, nem quero saber. Dou-me por satisfeito que uma vedeta mundial, como ela, goste de Portugal. Que, apesar de todos defeitos e virtudes que este país tem, mesmo assim ela queira cá viver. Porque é isso que eu sinto: eu gosto de Portugal com o que tem de bom, aceitando o que tem de mau.

Mas incomoda-me que, quando estamos perante as Madonnas desta vida, tentemos ser um país que não somos. Em nome de um alegado interesse nacional, parece que estamos sempre dispostos a tudo: a desburocratizar processos e, às vezes, até a atropelar todas as regras, só para ficarmos bem na fotografia, com medo que "eles" vão embora ou que façam má publicidade ao país.

Vem isto a propósito do pedido que Madonna fez à Câmara de Lisboa para utilizar um espaço público que, alegadamente, servirá para estacionar os seus 15 carros. Pretexto? Obras em três prédios da zona das Janelas Verdes, bem no coração da cidade, onde é dificílimo estacionar. Vamos dar de barato os 2,18 euros - e é mesmo muito barato - que Madonna vai pagar por dia, por cada carro estacionado numa das zonas mais caóticas da cidade. Vamos ainda acreditar que a Câmara de Lisboa respeitou a lei e não favoreceu a cantora norte-americana ao ceder-lhe este espaço de forma temporária. Mas quem é que terá ido pessoalmente tratar de encontrar uma solução de estacionamento para a cantora? Nada mais nada menos que o chefe de gabinete do próprio Presidente da Câmara.

Dificilmente algum dia precisarei de utilizar um espaço público para estacionar 15 carros enquanto faço obras em casa. Mas, na eventualidade de isso me acontecer, folgo em saber que terei o chefe de gabinete do Presidente da Câmara ao meu dispor. Já agora, gostava de perceber quanto tempo demorou o processo de Madonna na Câmara de Lisboa. A quantas reuniões de câmara foi (aparentemente nenhuma), quantos requerimentos foram preenchidos e quantas taxas foram pagas, se é que havia lugar ao pagamento de taxas.

E só pergunto isto - e acho que a Câmara de Lisboa deve mesmo dar explicações - porque uma das coisas que aceito muito mal no meu país continua a ser a burocracia. Venha ela do poder central ou do local. Quem nunca meteu um pedido de licença numa câmara para fazer uma pequena obra em casa e esperou meses pela aprovação? Quem nunca ligou para os famosos números começados em 707 ou 800, desafiou todos os limites da paciência com os gravadores automáticos e acabou por desligar, com as mesmas dúvidas e a deitar fumo pelas orelhas de raiva? Quem nunca acreditou no simplex, tentou usar os serviços públicos online do Estado e deu de caras com um "page not found". Quem nunca tirou uma senha à porta de um serviço público, passado uma hora descobriu que não tinha tirado a senha certa, tirou outra, acabou por ser atendido por um funcionário rabujo daqueles que responde a tudo com monossílabos e saiu de lá sem conseguir tratar do que queria porque "falta um papel"?

Madonna nunca, seguramente. E se até compreendo que uma estrela como ela possa dar-se ao luxo de pagar a quem enfrente o monstro da burocracia, já tenho mais dificuldade em compreender que o Estado trate de forma diferente quem é igual, mesmo que cante melhor que eu, que seja famosa e tenha mais dinheiro.

Dito isto, é da mais elementar justiça reconhecer que Portugal, nos últimos anos, registou avanços significativos no combate à burocracia, ainda que o caminho por percorrer seja longo e penoso. Como é também da mais elementar justiça reconhecer a importância de ter uma Madonna a viver em Portugal, pelo que isso significa de prestígio para o país. Mas já que o nome Madonna, por si só, parece ser um desburocratizador automático, o Estado pode, pelo menos, colocar essa experiência ao serviço de todos os cidadãos e simplificar-nos a vida a todos.

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