Champanhe e ostras, um almoço de Marylin com a Baronesa

Há uma coisa melhor do que fazer entrevistas, que é ler boas entrevistas feitas a pessoas extraordinárias que jamais poderei conhecer. E portanto vão-se acumulando nas estantes livros com conversas que eu gostaria de ter tido ou às quais gostaria de ter assistido sentada a um cantinho. Foi assim que dei de caras com Karen Blixen, ou Isak Dinesen, ou Tanya, ou simplesmente a Baronesa, a autora de África Minha, num volume da The Paris Review. A editora Tinta da China já publicou em português três livros com entrevistas desta revista, mas neste caso é uma edição da própria revista e só com escritoras, Women at Work.

A entrevista é datada de 1956 e foi feita por Eugene Walter, ele próprio uma figura que mete respeito. Foi um dos elementos iniciais da publicação - vivia em Paris no outro lado da rua - e foi escritor, tradutor, ator, bonecreiro (a baronesa também gostava de marionetas), chef gourmet, criptógrafo, editor, desenhador de moda. Desenrola-se em três cenas, em três locais diferentes de Roma, e tem como epílogo um trecho de um conto da escritora.

Por toda a conversa perpassa a mesma atitude aristocrata que a baronesa levou até ao fim da vida. Eugene Walter não se detém em África Minha, o livro de 1937 que, tornado filme em 1985 por Sidney Pollack, com Meryl Streep, Robert Redford e Klaus Maria Brandauer, foi um êxito total. Ele quer falar sobre os contos que ela publicou e sobre a vida dela, incluindo naturalmente o período do Quénia. E ela, toda de preto - vestido, longas luvas, chapéu - mostra-se "uma senhora com opiniões tanto da maior profundidade como da mais encantadora frivolidade". Acendendo cigarros sucessivos.

Começa por sugerir que não haja entrevista, o que é sempre um bom arranque, mas traz um argumento de peso: esteve tão doente que se preparou para morrer. "Até planeei uma última palestra na rádio sobre como é fácil morrer... Não uma mensagem mórbida, não quero dizer isso, mas uma mensagem, bem, de alegria... de que morrer era uma enorme e amável experiência. Mas estava demasiado doente para fazer isso." Sobreviveu e sentiu-se uma gaivota a pairar, desligada da vida, e então foi para Itália "para voltar ao mundo". E está a gostar: "Oh, olhe para o céu agora!"

Também gosta de jazz, embora prefira a música antiga. E explica como o seu primeiro manuscrito de um livro de contos foi recusado liminarmente por um editor inglês, em 1931, tinha ela acabado de chegar de África e estava sem dinheiro. Depois de publicado nos Estados Unidos, o mesmo editor pediu o contacto dela desesperadamente, sem perceber que a baronesa Blixen era Isak Dinesen. Histórias do mundo da edição.

Há um ensaio da escritora norte-americana Carson McCullers sobre Isak Dinesen. Conheceram-se num jantar em que, a pedido de ambas, ficaram sentadas lado a lado na Academia Americana das Artes e das Letras, cinco ou seis anos depois da entrevista de Eugene Walter. Quando já se tratavam por Karen e Carson, a dinamarquesa disse que gostava muito de conhecer Marylin Monroe. O encontro deu-se num almoço em casa de Carson McCullers e Marylin ouvia, deslumbrada de olhos muito abertos, as histórias africanas. O dramaturgo Arthur Miller, marido de Marylin, preocupou-se com o regime alimentar de Tanya: só comia ostras e bebia champanhe, e nos meses em que não havia ostras resignava-se com tristeza a comer espargos. "Que médico lhe indicou essa dieta?", perguntou ele, falando de proteínas. "Não percebo nada disso, mas sou velha e como o que quero e me apetece." É possível encontrar na internet fotografias deste almoço memorável que acabou com todos a dançar. Tanya tinha 75 anos e estava doente. Morreu no ano seguinte.

Volto à entrevista. Eugene quer saber as leituras dela, e a resposta é extraordinária: "Eu na verdade tenho 3000 anos e jantei com Sócrates." Perdão? "Nunca me disseram o que devia ler e o que não devia ler, li tudo o que me viu nas mãos. Descobri Shakespeare muito cedo, e hoje sinto que a vida não seria nada sem ele." E, acrescenta, adora Walter Scott, Melville, a Odisseia, as sagas norueguesas e, já agora, Racine também. E Ali Babá e os Quarenta Ladrões.

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