Fumo e fogo

Há algum tempo que um grupo de engenheiros portugueses cismava sobre um sistema que permitisse a deteção precoce de incêndios nas florestas portuguesas. Nenhum deles estava ligado à área. Não tinham muito conhecimento sobre o tema. Mas estavam fartos de ver o país a arder todos os anos. "Se ninguém faz nada, nós conseguimos", pensaram. Em novembro de 2016, antes de Pedrógão Grande e dos incêndios de outubro passado, montaram um projeto sólido, que venceu prémios no Acredita Portugal e no Big Smart Cities. O sistema de internet das coisas (IoT) baseia-se em sensores, três ou quatro por hectare de floresta, capazes de registar temperatura, humidade relativa do ar, humidade das folhas e existência de fumo. Estes dados são enviados de cinco em cinco minutos para uma plataforma central e qualquer anomalia gera um alerta imediato; consegue-se imaginar a diferença que isto faria se estivesse integrado no sistema de prevenção nacional?

Claro que sim, porque não é uma ideia nova. Há várias soluções no mercado, desde vigilância com drones a deteção ótica e até ninhos inteligentes. O problema é que ou não há investimento ou os sistemas têm uma percentagem elevada de falsos positivos. No caso da SmartForest, que desenvolveu este sistema de sensores IoT, a solução passa por algoritmos de inteligência artificial aplicados aos dados recebidos. Os últimos avanços em analítica e machine learning permitem fazer coisas que eram impensáveis há poucos anos.

O notável é que o interesse no sistema tem sido parco. Está a ser testado na Quinta do Pisão, em Cascais, e será alvo de um piloto da Tranquilidade, mas as portas a que os engenheiros têm batido raramente abriram. "A seguir a Pedrógão entrei em contacto com alguns ministérios e fui chamado ao Ministério da Administração Interna, mas passado um mês disseram que não havia qualquer interesse, nem em ajudar-nos nem em indicar quem poderia", relata um dos fundadores, Eduardo Henriques. Até agora, salvo um prémio monetário de 2500 euros, todo o hardware e software foi pago do bolso dos criadores. É certo que ninguém tem a obrigação de financiar startups nem de apostar numa proposta nova em detrimento das que já existem, mas não haver sequer interesse num piloto mais alargado que testasse o seu potencial parece inconcebível, dada a urgência de impedir que a tragédia de 2017 volte a ocorrer. Estamos a falar de sensores que custam neste momento entre 80 e 200 euros, porque são encomendados em pequenas quantidades, e de um licenciamento anual de cinco euros por hectare. Mais barato do que investimentos anteriores em sistemas de deteção de incêndios.

O Ministério da Administração Interna não comentou quando o questionei sobre este tema. Por aqui, a Califórnia está a olhar para tecnologias semelhantes que limitem os incêndios devastadores e mortíferos como os que assolaram o estado em 2017. Seria uma região de teste interessante para a SmartForest - se tivessem maneira de financiar esse salto.

A startup diz que não quer baixar os braços. Vai procurar financiamento junto de vários meios, apesar de saber que o capital que existe em Portugal é de pouco risco, e que os fundadores são velhos demais para qualificarem a ajuda por parte das entidades de incentivo (já ultrapassaram os 35 anos, idade-limite para receber apoio da Startup Portugal). "Nunca houve interesse", reconhece Eduardo Henriques, que até ponderou uma candidatura ao Portugal 2020 mas viu essa possibilidade fugir. Dizem-lhes que é uma excelente ideia e estão a fazer um bom trabalho, mas na hora de dar um impulso, para levar o sistema adiante, não há interessados.

É difícil perceber porquê. Mesmo que o sistema da SmartForest tivesse limitações, um piloto permitiria ajustar a tecnologia, melhorá-la e demonstrar se valia ou não a pena apostar neste tipo de sistemas em zonas críticas. Não seria uma panaceia, seria mais um elemento entre tantos. É que as imagens que ficaram do terror incendiário de 2017 ainda cheiram a cinza e têm a carga da morte. Há um sentimento perene de impotência, como se as montanhas cobertas de inferno respondessem a um destino fatal que escolheu Portugal como vítima. Os números do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas são esmagadores: quase 17 mil ocorrências resultaram em 442 mil hectares de área ardida de espaços florestais. É um aumento de 428% em relação à média dos últimos dez anos, que por si só também já não era famosa. A morte de 109 pessoas foi uma tragédia tão grande que não há maneira de olhar para isto sem revolta. Como é que um dos países mais pequenos da Europa consegue queimar-se desta maneira todos os anos? O suor dos bombeiros exaustos, o desespero das populações e o risco de vida não podem voltar a encontrar ombros encolhidos na próxima vez. E se houver novos meios que ajudem a detetar incêndios, porque é que não se há de tentar?

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