Covid-19, que dor de cabeça!

As dores de cabeça, ou cefaleias, são sintomas frequentes da infeção aguda por covid-19, podendo ocorrer até um em cada três ou quatro infetados, frequentemente associadas a perda do olfato e, por vezes, dores musculares e febre. Podem ser a primeira manifestação da doença, começando de forma insidiosa e ficando contínuas e difíceis de controlar com os analgésicos. Ao longo de horas ou dias, podem tornar-se intensas, sendo sentidas como uma pressão (ou latejantes) em toda a cabeça, sobretudo na região mais anterior - testa ou têmporas. Habitualmente resolvem em três a cinco dias, podendo manter-se até duas semanas. Depois da infeção aguda, alguns doentes mantêm queixas de dores de cabeça mais ligeiras, persistentes e disruptivas, apesar da medicação. Estas resolvem, na maioria dos casos, até três meses depois da infeção e são enquadráveis no que se designa por síndrome pós-covid.

Adicionalmente, qualquer uma das vacinas anticovid pode provocar dores de cabeça como efeito adverso ligeiro, autolimitado, nas 48 a 72 horas após a sua administração, em qualquer uma das doses. Habitualmente, são acompanhadas de fadiga, febre, dores musculares e dor no local na inoculação.

Até à data não há nenhum estudo que nos permita perceber que pessoas são mais suscetíveis a sofrer de cefaleias com a doença covid-19 e/ou a vacinação, sendo que as pessoas que habitualmente já sofrem de cefaleias ou enxaqueca não parecem ter mais risco de ter dores de cabeça nestas situações.

No entanto, foi documentado que o contexto pandémico influencia a frequência e a intensidade das crises de cefaleias e enxaqueca nos doentes que delas padecem - e 60% a 70% dos doentes relatam um agravamento da doença, sofrendo mais crises e crises mais intensas. Porquê?

O fator mais frequentemente implicado é o aumento de ansiedade reativo à situação da pandemia ou das suas consequências - perda de rendimentos, mudanças na situação laboral, alteração de ritmo de vida, doença ou perda de familiares, alterações do padrão de sono, entre outros, situações com conhecida influência na expressão de doenças como a enxaqueca ou a cefaleia de tensão.

Por outro lado, a utilização de equipamentos de proteção individual (EPI), em particular a máscara, foi documentada como fator de agravamento das cefaleias prévias (em frequência e/ou intensidade) em mais de 90% dos indivíduos, num inquérito nacional com cerca de 5 mil participantes, realizado pela equipa do Hospital da Luz, em colaboração com a Sociedade Portuguesa de Cefaleias e a MiGRA Portugal.

Mesmo em pessoas sem cefaleias prévias, verificou-se que a utilização prolongada de máscara (> 4 horas consecutivas) pode desencadear dores de cabeça, habitualmente ligeiras, difusas ou nos locais de pressão dos elásticos e/ou das máscaras. Sendo elementos indispensáveis no combate à pandemia, este estudo pretendeu sobretudo alertar para este problema e sugerir estratégias para a sua mitigação, reforçando a necessidade de utilização de EPI.

Por fim, a dificuldade de acesso a cuidados de saúde durante a pandemia levou a que muitos doentes suspendessem o seu acompanhamento médico e alguns tratamentos de base hospitalar, ou que tivessem dificuldade em ter acesso à sua medicação ou a medicação mais eficiente, o que influencia o agravar da situação.

Presidente da Sociedade Portuguesa de Cefaleias

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