O que é que não se percebe na palavra "abuso"?

Durante muito tempo, demasiado, gostámos de viver com a ideia de uma especialidade portuguesa, uma imunidade a males e defeitos que todos os outros poderiam ter, mas nós não. Aqui, por unção divina, especificidade genética ou uma mistura de ambas, não surgiam nem se reproduziam certos inconvenientes de ser-se humano. Assim têm passado sem atenção e sem clamor público suficientes, quando não em pura negação, por exemplo, o alcoolismo endémico, a violência doméstica, o racismo estrutural, a dependência excessiva de medicamentos ansiolíticos e antidepressivos e, naturalmente, o abuso sexual de padres e leigos em instituições religiosas e as responsabilidades e comportamentos da Igreja perante este.

Nem vale a pena insistir que seguramente os casos que hoje são publicados representam apenas uma ínfima parte da realidade.

A Igreja Católica é uma instituição que se estruturou historicamente e ainda hoje vive na pura misoginia - e sem qualquer repúdio social, o que é extraordinário em 2022. A isso, adicione-se a imposição de celibato e de castidade, bem como uma jurisdição, um direito e uma ordem judicial próprias. E o isolamento institucional, provindo da sua excecionalidade, que mantém e do qual também se alimenta.
Este caldo de regras próprias e misticismo, culturalmente assumido por um povo pobre e analfabeto, um povo gerado sucessivamente no seu próprio fundamentalismo religioso e de convicções ou conveniências reforçadas por um Estado efetivamente unido à Igreja, só pode resultar numa suscetibilidade desta Igreja para acolher, mesmo que involuntariamente, um dado perfil de abusador entre os seus. E que entenda que os seus comportamentos devem ser essencialmente tratados como pecados e não como crimes. Um homem da Igreja, quando muito, pode ser um grande pecador, mas nunca um predador.

Assim, não espanta que, nos últimos dias, a Igreja responda a denúncias e críticas simultaneamente com manifestações da superioridade moral que a caracteriza geneticamente, mas também com posições de public relations típicas de uma qualquer grande empresa multinacional. Porque a Igreja é ambas as coisas.

Dizer que, já nos anos 90 do século XX, se lidou com manifestas situações de crime sexual por parte de padres de acordo com as regras vigentes à época não só é um exemplo de cinismo inacreditável - é também um sinal de que aqui, como noutros países, e sem espanto, há seguramente uma realidade encoberta e vasta, só menos evidente e chocante porque provavelmente mais consentida e integrada socialmente, num contexto em que a espiritualidade católica não tem concorrência e se confundiu durante séculos, para tantos ou quase todos, com a possibilidade de alguma educação e de superação da pobreza extrema, para além do cumprimento exigido dos deveres sociais da época.

Sim, os crimes sexuais encobertos pela Igreja podem ser exemplos de doença moral, de fraqueza e limitações do homem perante tentações, de pecado na sua forma mais pura. Mas nunca poderão deixar de ser crimes, prescritos ou não. E a Igreja, se o quer ser à imagem de Deus, tem de ser efetivamente melhor do que os homens.

Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG