O sociólogo Hein de Haas mostra que o arsenal usado para lutar contra a imigração ilegal tem custos equivalentes a um orçamento ultrassofisticado das Forças Armadas. Ficaria incomportavelmente mais barato acolher todos os imigrantes que quisessem vir para os nossos países, e, só para ilustrar o ridículo, ainda pagar-lhes uma pensão. Mas ainda assim prefere manter-se operações policiais caríssimas, altamente repressivas, e ainda por cima para afastar pessoas que fazem os trabalhos que não queremos, e ainda dar lucro à Segurança Social. Dá vontade de pensar que estamos todos a dar um enorme e caríssimo tiro no pé.É impressionante olhar para os custos envolvidos na repressão da imigração. Nos EUA, a dupla CBP/ICE recebe, num só ano, mais dinheiro do que o FBI ou a DEA (a que se somam mais umas quantas “agências federais”) juntas. A União Europeia segue uma linha semelhante: no orçamento de 2025, a rubrica “Migração e gestão de fronteiras” já vale quase o dobro de “Segurança e Defesa”, e a Frontex, com mais de mil milhões de euros por ano, deixou há muito de ser uma pequena agência técnica.Estes gastos podem levar a (ainda) mais estranheza se pensarmos num paradoxo impressionante: as políticas que fecham fronteiras podem produzir efeitos contrários ao pretendido. Desincentivam a imigração circular, porque as pessoas evitam regressar ao seu país com medo de não poderem voltar. Resultado: mais imi- gração permanente. Deixa de haver circulação, passa a haver fixação. Por outro lado, como mostra De Haas, as restrições geram verdadeiras obsessões de migrar, decisões desesperadas de um “agora ou nunca” coletivo, que políticas mais fluidas de “entradas e saídas” não incentivam. Um exemplo deste último caso é a liberdade de circulação intracomunitária, que nunca levou a uma deslocação massiva do Leste para o Oeste ou do Sul para o Norte, devido às fronteiras mais fluidas.No entanto, estes estudos de pouco servem para convencer do completo absurdo em curso. O discurso “anti-imigração” não quer saber dos números. Ele alimenta-se de algo profundamente visceral e, por isso, muito mais forte: de um profundo sentimento de ameaça, de receio de perda de identidade cultural. Não se trata, enfim, de evitar que os contribuintes gastem dinheiro com os migrantes. Os políticos que exploram os receios anti-imigração, na sua ânsia de ganharem popularidade, apelam aos medos primitivos. Daí que, em comentário à minha última coluna, muitos tenham dito estar dispostos a “pagar o que for preciso” para não recebermos requerentes de asilo.É profundamente inquietante esta obsessão. Nascemos de uma confluência de civilizações e assim forjámos a nossa cultura. Pagamos milhares de milhões para afastar quem vem contribuir para a nossa sociedade, em nome de receios impulsivos. Serei sempre a favor de uma imigração regulada. Mas isso não é o mesmo que uma imigração restritiva, amarrada e autossabotadora. Gastar milhares de milhões nessa política é um paradoxo que só se explica pelo medo. Precisamos de líderes que governem com razão e deixem de explorar sentimentos inscritos na amígdala coletiva.