Lições de um ano de pandemia

Quando todos formos vacinados, quando começarmos a sentir as nossas vidas a voltarem finalmente à normalidade, já terá passado muito mais de um ano desde o início dos confinamentos e dos estados de emergência. Tem sido uma experiência perturbadora e um desafio gigantesco para muitos, marcado por longos períodos de separação da família e dos amigos, e uma ansiedade constante e intensa. Não querendo, nenhum de nós, passar por tudo isto novamente, ao mesmo tempo há um grande valor na experiência vivida. As coisas que aprendemos são diferentes para cada um de nós. Mas o último ano, em pandemia, ensinou-nos igualmente muito não apenas sobre as nossas vidas mas sobre as vidas dos outros. Coletivamente, desenvolvemos novas qualidades de empatia.

Talvez este seja um daqueles momentos em que olhamos em simultâneo para trás e para a frente, um momento central na vida e na história de cada um. Podemos ver o que perdemos e agora temos hipótese de recuperar. Podemos identificar várias lições a tirar da pandemia, como a resiliência e o verdadeiro entendimento do que é essencial. Podemos recordar que ganhámos novas habilidades que não sabíamos que tínhamos, como ser competentes em trabalhar remotamente e ser capazes de socializar de outras maneiras. Olhando para o mundo e para o país, percebemos de forma dramática o papel insubstituível da ciência e de como o nosso sistema de saúde é de importância crítica mas é também vulnerável.

Durante a crise sanitária descobrimos no mais fundo do nosso ser o significado de sermos especialmente generosos e apoiarmo-nos uns aos outros. De não nos culparmos se estivermos um pouco deprimidos ou ansiosos - é uma resposta normal perante tudo o aconteceu desde março de 2020. Tornou-se ainda claro que a atenção à saúde mental é particularmente importante para os grupos vulneráveis, como aqueles com doenças mentais graves, mas que mesmo fora deles muitas pessoas foram atingidas. Dito isto, compreendemos também que há muitas maneiras de fortalecer a nossa saúde mental, das ligações sociais, incluindo à distância, até ao sono, passando pela atividade física e pelo empenho profissional naquilo que, cada um no seu posto, contribuímos para a sociedade comum.

Em contexto pandémico, o ar livre tem sido um lugar mais seguro para atividades socialmente distantes do que o interior das casas. Aprendemos, pela avalanche informativa dos últimos meses e daquilo que observámos em nós e naqueles que de alguma forma conhecemos, que os espaços verdes e em particular as árvores trazem benefícios importantes para a nossa saúde. Que uma breve caminhada na natureza, digamos de uma hora, pode melhorar a nossa memória de curto prazo ("de trabalho") e a nossa capacidade de atenção em cerca de 20 por cento.

Também ficámos a saber que estes impactos são ainda mais fortes nas pessoas diagnosticadas com depressão, e que mais espaço verde nos nossos bairros está relacionado até com taxas mais baixas de diabetes e doenças cardíacas - mesmo quando nos estudos destes benefícios adicionais incluímos a ponderação por rendimento, idade e níveis de educação. Acresce que estes são benefícios que podemos obter em qualquer época do ano, inverno ou verão, e aplicam-se independentemente de "gostarmos" da natureza ou não.

Depois de nos determos em tópicos importantes como a distribuição de vacinas e a reabertura das escolas, para não falar da recuperação económica, devemos também aceitar que precisamos de mais espaços ao ar livre onde as pessoas consigam interagir com segurança e obter a regeneração cognitiva de que tanto precisam.

Sentimos falta de estar fisicamente com os amigos e de ver novos lugares? Obviamente que sim. Mas uma boa internet de banda larga e competências razoáveis na cozinha valem ainda mais do que imaginávamos. Claro que estamos cansados de vermos pouco para lá do que nos rodeia.

Compreendemos que trabalhar em casa pode ser mais fácil - sobretudo quando toda a gente está na mesma situação. De facto, o teletrabalho é frequentemente muito mais simples. Lembro-me perfeitamente e sem quaisquer saudades de quando era preciso atrasar uma reunião porque não havia salas físicas disponíveis. É verdade que ao fim de um ano continua a haver sempre alguém que ainda não aprendeu a ativar ou desativar o som do microfone.

Muitos de nós não sentiram assim tanta falta daquilo que pensámos que seriam perdas graves. Ou sentimos mas ao mesmo tempo vivemos bem sem elas. Por exemplo, sentimos falta de ir a restaurantes. Mas se calhar não sentimos falta de termos de levantar a voz para falar com os outros, por causa de música alta, ou de esperar séculos até conseguirmos fazer o pedido ou nos trazerem a conta, ou lidar com a qualidade inconsistente de sítios que esperávamos que fossem de confiança.

Este período de mais de um ano foi também de muitas oscilações. Houve momentos em que olhámos para o computador a horas incertas sem fazer grande coisa. Noites perdidas num nevoeiro de filmes e séries e snacks culpados. Noites em que simplesmente não conseguimos dormir. Tivemos amigos e conhecidos nos cuidados intensivos e alguns, mais ou menos próximos, perdemo-los mesmo. Fantasiámos gratuitamente sobre esticarmo-nos na praia, uma bebida ao alcance da mão, com as tarefas de cozinha e de limpeza da casa garantidas por artes mágicas.

O que aprendemos num ano de pandemia e de confinamentos prolongados? Que apesar de tudo é possível mantermo-nos saudáveis e equilibrados. Que há sempre oferta e ideias para nos entretermos. Que dá para fazer programas diferentes e interessantes - culturais, culinários, sociais, familiares ou uma combinação de todos eles.

Responsável pelas Relações Institucionais da DECO PROTESTE

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