Krakatoa

Não sei como estará agora, tal era a degradação há anos. Talvez até já tenha sido destruída, para dar lugar a um condomínio de luxo com piscinas e vistas de mar, assim se perdendo para sempre a memória de um lugar único, a estação da Companhia do Cabo Submarino, em Carcavelos, que nos ligou aos confins do mundo, e vice-versa. Em 1870, no reinado de D. Luís, foi assinado com a companhia inglesa Falmouth Gibraltar and Malta Company o primeiro contrato de concessão de exploração de um cabo submarino entre Londres e Malta, com amarração em Portugal, e, dois anos depois, seria adquirida a Quinta Nova, de Santo António ou da Lobita, em Carcavelos, doravante chamada dos Ingleses, por aí se ter instalado uma importante colónia britânica para tratar do cantante cabo. Terá sido aí, ao que parece, que em Portugal se jogou pela primeira vez o futebol, o râguebi, o ténis, o golfe, o voleibol, razão acrescida para que aquele local merecesse melhor atenção por parte da edilidade cascalense, sua proprietária.

Por ali passaram notícias, sinais, mensagens de terras distantes, trovas de guerra, ditos de amor. Um cabo ligava Singapura a Londres, atravessando o Golfo de Bengala, subindo o Mar Arábico, depois o Golfo de Áden, Mar Vermelho acima, Canal do Suez, a seguir o Mediterrâneo, Malta, Gibraltar, as Colunas de Hércules, a lusa Carcavelos e daí para Vigo, rumo ao Norte. Se é estranho pensar na dimensão planetária desta obra, do esforço titânico que ela representou, mais estranho ainda é saber que ela só foi possível por uma razão botânica, de nome científico Isonandra gutta, a guta-percha, do malaio getah perca, que tanto designa a árvore como a sua seiva preciosa, um látex facilmente moldável e resistente à água, com grandes capacidades de isolamento eléctrico. Os nativos de Samatra usavam-na para fins domésticos, no fabrico de bengalas, bastões, cabos de facas, até que uma firma londrina, a S. W. Silver & Company, descobriu que poderia ser extraída das árvores, tal qual a borracha, mas que tinha uma resistência e uma durabilidade muito maiores do que esta. O primeiro cabo telegráfico submarino tinha sido instalado em 1850, entre Londres e Calais, mas o projecto arriscava-se a ter insucesso, tantas eram as vezes que os cabos se partiam ou eram destruídos por plantas e animais marinhos. A guta-percha revolucionou tudo isso, a firma londrina mudou o nome para India Rubber, Gutta Percha & Telegraph Works Company e, em cadência rápida, foram ligados os mais distantes pontos do planeta, uma transformação de tal forma espantosa que seria cantada em verso por Tennyson e por Kipling. Além de mais fáceis e mais baratos de instalar do que os cabos terrestres, as ligações submarinas tinham a vantagem de se encontrarem menos expostas às guerras e aos movimentos de tropas, a ataques inimigos, aos fogos florestais e a outros desastres terrenos.

Houve erupções vulcânicas muito mais graves do que a ocorrida em Krakatoa, em 27 de Agosto de 1883, O dia em que o mundo explodiu, título do impressionante livro que Simon Winchester dedicou ao fenómeno (Krakatoa. The Day the World Exploded, Viking, 2003), obra que, inexplicavelmente, nunca foi publicada entre nós. A mais grave de todas ocorreu há 74 mil anos, no Lago Toba, na Samatra, e diz-se que reduziu a espécie humana a uns 10 mil ou mesmo apenas mil casais, não mais. Teve o grau 8 no Índice de Explosividade Vulcânica (IEV), o máximo da escala, mas, em Abril de 1815, pouco antes do Krakatoa, ocorreu a tragédia do Monte Tambora, na ilha de Sumbava, Indonésia, com um IEV de grau 7, que causou cerca de 71 mil mortos e provocou, no ano seguinte, uma estranha alteração climática no hemisfério norte, conhecida como o "Ano Sem Verão", com geadas avassaladoras e tempestades invernosas que fizeram colapsar as colheitas, arruinaram milhares de agricultores, provocaram fomes e miséria da América até à China. Houve motins e revoltas, a Suíça declarou o Estado de Emergência, caiu neve vermelha em Itália, morreram 100 mil pessoas na Irlanda. Em Portugal, em Novembro, ainda se vindimava no Minho, tal fora o atraso que o frio provocara no amadurecimento das uvas e, no Algarve, praticamente não houve fruta. Nas letras e nas artes, os efeitos mais célebres do "Ano da Pobreza", como também foi chamado, foram a novela Frankenstein, que Mary Shelley escreveu quando se refugiava do frio e da chuva nas margens do Lago Léman, e, dizem, os céus ardentes e apocalípticos das pinturas de Turner.

Contudo, e apesar de ter tido uma dimensão bem mais reduzida do que o Monte Tambora, e um número muito menor de vítimas, da ordem dos 36 mil mortos, apesar de ser "apenas" a quinta erupção mais violenta da História, com um IEV de grau 6.5, a explosão do Krakatoa é a mais célebre de todas, aquela que mais profundamente ficou inscrita na memória do mundo, a ponto de nem recordarmos sequer que, em 1985, já no nosso tempo, o Nevado del Ruiz, na Colômbia, ter feito 23 mil vítimas. É que, se o Monte Tambora e o seu "Ano sem Verão" mostraram que, do ponto de vista climático, vivemos mesmo em "um só mundo", na expressão do filósofo Peter Singer, e que aquilo que acontece nos confins da Ásia tem efeitos e reflexos sobre as vindimas do Minho e a fruticultura do Algarve, a erupção do Krakatoa foi a primeira grande tragédia da História noticiada quase em tempo real, o acontecimento que inaugurou a ideia de "aldeia global" cunhada por McLuhan anos depois. E isso deveu-se à invenção de Morse, em 1844, à abertura do Canal do Suez, em 1869, aos caminhos-de-ferro, que os holandeses inauguraram na Batávia também em 1869, mas também, e primordialmente, à guta-percha e aos cabos submarinos, fixados e amarrados ao largo de Carcavelos. Mais ainda: aquelas paragens distantes eram conhecidas e habitadas pelos europeus devido a uma outra planta, avidamente disputada, Piper nigrum, a pimenta-preta, que os portugueses - e depois, os holandeses - começaram a comerciar para a Europa nos idos de Quinhentos. Isto anda mesmo tudo ligado, como sói dizer-se.

O que ocorreu e está a ocorrer neste Verão de Inferno é uma eloquente ilustração da fragilidade e da precariedade da civilização humana ante as agruras do clima.

Para quem duvide, outro fun fact: é possível datar erupções antiga pela poeira vulcânica acumulada e sequestrada no gelo (na Antártida e na Gronelândia há indícios de neves ácidas do século 6 d.C.) ou pelos anéis das árvores centenárias, pois a poeira libertada das crateras obscurece os raios solares, arrefece as temperaturas e, assim, retarda momentaneamente o crescimento das árvores, cujos anéis ficam mais próximos nos anos de maior frio, deixando um registo vegetal inequívoco de explosões ocorridas há muitos séculos.

Os primeiros sinais da catástrofe, súbitos e insistentes, foram dados em Maio, e registados por um faroleiro. Cinco dias depois, Willem Beyerinck, que exercia funções de contrôleur do intenso tráfego marítimo no Estreito de Sunda, em Samatra, sentiu uma vibração contínua, como um rugido vindo das entranhas da terra, e os tripulantes da corveta alemã Elisabeth foram os primeiros europeus a observar, aterrados, a gigantesca coluna de fumo que se erguia do Krakatoa, que muitos julgavam extinto há décadas, ou mesmo há séculos. Os comandantes de outros navios também presenciaram o lúgubre espectáculo, sem consciência do risco que corriam e do que estava prestes a acontecer.

Na parte velha de Batávia (actual Jacarta), um prato de Delft caiu ao chão, desfazendo-se em mil pedaços; pertencia à senhora Van der Stok, que na altura estaria provavelmente a preparar o almoço de família, por volta das onze da manhã daquele domingo, 20 de Maio de 1883. O marido, o dr. J. P. van der Stok, que anos antes viera de Utreque para dirigir o Observatório Meteorológico e Magnético da cidade, encontrava-se tranquilamente na sala de estar, a ler o jornal da manhã, e também sentiu o bater das portas e das janelas. A casa ficava ao lado do Observatório, o dr. Van der Stok dirigiu-se para lá de imediato, logo notou que todos os instrumentos mostravam que algo de estranho estava a ocorrer. O mais bizarro de tudo, porém, é que as vibrações não pareciam surgir do solo, como se se tratasse de um terramoto, mas antes do ar, como um vento jamais visto. Os colonos holandeses regressaram da missa preocupados, mas quiseram manter a fleuma altiva dos europeus, em contraste com o profundo temor dos nativos, que logo falaram em sinais dos céus, no despertar em fúria de Orang Alijeh, o temido espírito das montanhas. Ao chegarem a casa, vindas da missa, as senhoras notaram os movimentos da água nos barris que guardavam nas cozinhas e nas casas-de-banho.

Não muito depois, um grupo de cinco pescadores apavorados irrompeu em casa de Willem Beyerinck. Ao início, os pescadores julgaram que o ruído que ouviram e que a ondulação das águas provinha de algum navio militar em manobras, mas perceberam que não, que estavam na iminência de algo muito mais grave. Até na longínqua Singapura se ouviram os ruídos e um fazendeiro inglês que tinha uma plantação em Timor, a dois mil quilómetros de distância, notou as cinzas e a poeira a caírem sobre a sua casa.

Apesar de tantos sinais, as autoridades julgaram que tudo não passaria de uma episódica erupção vulcânica, passageira e inconsequente. E, como sempre sucede, logo surgiram alguns a fazer negócio com o fenómeno e com o seu potencial turístico: em 26 de Maio, um sábado, a The Netherlands Indies Steamship Company organizou uma excursão turística no Gouverneur-Generaal Loudon, com 86 passageiros a bordo, para ver de perto a erupção na ilha de Krakatoa, onde muitos desembarcaram, tiraram as fotografias da praxe, regressando a casa por volta das oito da noite. Foi o primeiro de vários passeios, todos muito concorridos, e durante oito semanas pouco mais se passou. Parecia, pois, que as previsões dos colonos estavam certas, que tudo não passaria de um susto passageiro. E, em 11 de Agosto, o capitão Ferzenaar, oficial do Exército holandês, foi até à ilha, passou lá dois dias, sozinho, a fazer levantamentos topográficos.

O resto do mundo pouco sabia do Krakatoa. A primeira notícia de que algo lá sucedera surgiu numa nota minúscula, no fim da página 12 do Times, em 24 de Maio, e dizia em duas linhas que, segundo informação do agente local da Lloyd"s, ocorrera uma "explosão vulcânica" na ilha de Krakatoa, Estreito de Sunda. Fundada em 1811 e ainda hoje existente, a rede da Lloyd's é uma legítima antecessora da Internet: em todos os portos do mundo, mesmo os mais ínfimos e remotos, existia um agente local da histórica seguradora, o qual, como refere Simon Winchester, em tempos de calmaria limitava-se a anotar meticulosamente o movimento dos navios e as suas cargas, mas no caso de acontecer um sinistro, sob a forma de naufrágio, ataque pirata ou colisão de navios, tinha o espinhoso encargo de arbitrar conflitos, proceder a peritagens e ressarcir os lesados. Em Anjer, que no século XIX foi um importante porto no extremo oeste da Ilha de Java, o agente da Lloyd's era o sr. Schuit, dono de um hotel, que fora escolhido pela seguradora britânica por um motivo simples, mas decisivo: da varanda do seu hotel gozava-se uma vista esplêndida, sem rival, nem par, sobre a Baía de Anjer e os navios que nela navegavam. Foi ele que transmitiu a notícia chegada ao Times.

Além dos cabos submarinos e da rede da Lloyd"s, a erupção do Krakatoa tornou-se um acontecimento planetário e ganhou o estatuto que ainda tem devido a outro factor, o surgimento das agências noticiosas. A primeira agência fora fundada em Londres por um audaz homem de negócios, um judeu de origem alemã, Julius Reuter, que, quando dirigia um pequeno jornal em Paris, usava pombos-correios para obter notícias rápidas e logo se apercebeu das imensas potencialidades do telégrafo. Graças ao novo invento, Reuter esmagou a concorrência ao noticiar, em primeira mão, o discurso do rei da Sardenha ao Parlamento, a derrota dos austríacos na Batalha de Solferino, em 1859. Dois anos depois, já tinha uma rede de mais de 100 correspondentes espalhados pelo mundo, os quais, quando não havia telégrafo, recorriam a todos os meios para expedir notícias até Londres (o assassinato de Lincoln foi transmitido através de um navio-baleeiro que cruzava o Atlântico e noticiado em tempo-recorde... doze dias depois de ter ocorrido).

Entretanto, a Oriente, mantinha-se a indiferença aos sinais do Krakatoa. Em finais de Julho, inaugurava-se com pompa a sede remodelada do Concordia, um dos dois grandes clubes de Batávia, e chegava à cidade um circo famoso, cuja principal atracção era um pequeno elefante, que a tratadora garantia ser o mais minúsculo paquiderme do mundo. Miss Lochart tinha tal ternura pelo elefantezinho que, imagine-se, o levou discretamente para o seu quarto no Hôtel des Indes. Na madrugada de 27 de Agosto, o animal começou a ficar inquieto, talvez por pressentir já o som e a fúria do vulcão todo-poderoso. Entrou em fúria, destruiu toda a mobília do quarto, berrou, barriu, bramiu a plenos pulmões, fez um escândalo tal que a gerência do hotel solicitou, naturalmente, que todos os domadores circenses que, porventura, tivessem animais nos seus aposentos os fizessem sair discretamente pela porta das traseiras. Descobriu-se, então, que, por aqueles dias, o pacato Hôtel des Indes albergava um autêntico zoo, com animais de toda a espécie e porte...

O que se seguiu foi inaudito. As placas tectónicas que, durante 60 milhões de anos, convergiram na região de Java, aproximando-se entre si à velocidade de 10 centímetros por ano, deram azo a uma erupção gigantesca na Ilha de Krakatoa, passavam dois minutos das onze da manhã de domingo, 27 de Agosto de 1883. Os navios no mar observaram a coluna de fumo que se erguia da cratera, com 27 quilómetros de altura, três vezes o tamanho do Evereste. A meio da tarde, toda a costa ocidental de Java estava coberta por uma escuridão pavorosa, enquanto dos céus caíam, sem cessar, poeiras e faúlhas incandescentes, farrapos de lava, pedras de vários tamanhos e feitios. Com a atmosfera carregada de electricidade, os tripulantes de vários navios, especialmente os nativos, contemplaram apavorados o Fogo de Santelmo a iluminar os mastros e, num raio de milhares de quilómetros, os instrumentos dos faróis ou dos observatórios pareciam ter enlouquecido, assinalando as oscilações provocadas por aquela que foi, e ainda é, a mais violenta explosão registada nos tempos modernos, com o som mais alto já ouvido na História, audível a cinco mil quilómetros de distância. Formaram-se nuvens envenenadas, carregadas de dióxido de carbono, de ácido hidroclórico, de dióxido de enxofre e, depois, um tsunami avassalador dizimou 165 aldeias costeiras, fazendo mais de 37 mil mortos. Estima-se que em 13 por cento da superfície da Terra foram audíveis as vibrações provocadas pela explosão do Krakatoa e que, devido às poeiras que enegreceram os céus, a temperatura global decresceu 1ºC. Em Viena, Berlim, Roma, Paris, Modena, Palermo, Coimbra ou Lisboa foram registados sinais da tragédia e as ondas marítimas geradas pela erupção, algumas com mais de 40 metros de altura, chegaram ao outro lado do Pacífico, às costas da África do Sul e até a Socoa, perto de Biarritz, onde se registou um aumento da ondulação. Na manhã seguinte à erupção, Java foi assolada por um frio glacial, com uma baixa de temperatura que não se via há muitas décadas. O Sol mudou de cor ao crepúsculo, para gáudio de muitos pintores, e viu-se uma estranha Lua azul nos céus de Ceilão. Meses depois da erupção, em Dezembro, uma bizarra nuvem vermelha, cor de sangue, cobriu durante dias o porto e a cidade de Nova Iorque. Os milhões de toneladas de poeira que se acumularam na atmosfera iriam espalhar-se pelo mundo inteiro, durante anos, e a Ilha de Krakatoa foi riscada do mapa. Do ponto de vista político e social, a pobreza e a fome geradas pela devastação fizeram despertar revoltas e insurreições contra o domínio colonial holandês e atraíram muitos para o misticismo islâmico, contribuindo decisivamente para que a Indonésia tenha hoje a maior população muçulmana do mundo.

O historiador Will Durant escreveu uma frase lapidar: "Civilization exists by geological consent, subject to change without notice" (numa tradução grosseira: "A civilização existe com o consentimento da geologia, sujeito a alteração sem aviso prévio"). O que ontem se afirmava da geologia, dir-se-á hoje do clima e do ambiente, da natureza em geral, das condições em que a nossa civilização vive e prospera. O que ocorreu e está a ocorrer neste Verão de Inferno é uma eloquente ilustração da fragilidade e da precariedade da civilização humana ante as agruras do clima, ora surgidas sob a forma de calores extremos, ora de cheias diluvianas. E, dizem os prognósticos, o Inverno será pior, sem energia, com inflação. Convém, no entanto, não entrar em pânico (e, no fundo, fazer o jogo de Putin): na passada segunda-feira, informa o Financial Times, as reservas de gás europeias atingiram os 80,17%, bem acima da meta de 80% fixada pela UE para Novembro.

Aliás, se o Krakatoa nos dá uma lição de humildade ante a força da Natureza, fornece-nos também razões de esperança. Na explosão do vulcão, foram chacinados todos os animais e plantas que habitavam na ilha, mas, aos poucos, a vida regressou e brotou no que restava do arquipélago, uma paisagem inóspita e desoladora, inteiramente coberta de lava. Por muito incrível que pareça, em 1917 um alemão instalou-se em Rakata, juntamente com a família e alguns criados, para apanhar pedra-pomes na cratera adormecida. Construiu uma casa e plantou uma horta, um jardim de flores, morou lá durante quatro anos, numa extraordinária prova de tenacidade que nos deve levar a acreditar na força da espécie humana. Hoje, como nunca, é imperioso escutar o apelo de João Paulo II: "Não tenhais medo". Ou, se preferirem, a velha máxima maoista: Ousar lutar, ousar vencer.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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