Geopolítica de 1904

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“Se olharmos para a política externa americana, o que Trump está a fazer tem imensos precedentes históricos. O que foi excecional, e deve-se largamente à hegemonia dos EUA até 1991 e, sobretudo, depois de 1991, com o colapso da União Soviética, foi esta ordem internacional liberal da Guerra Fria. Hoje, o mundo é diferente e estamos a ver padrões de atuação que se assemelham muito, não aos anos 30, como muita gente diz, mas ao final do século XIX, início do século XX, e isso não acabou bem”, afirmou Vasco Rato, esta semana, numa entrevista ao DN, a propósito do primeiro ano deste segundo mandato presidencial de Donald Trump. Mas o que se passou mesmo naquele “final do século XIX, início do século XX”? A emergência dos EUA como potência mundial.

Independentes no século XVIII, a primeira república das Américas, os EUA nasceram muito mais pequenos e frágeis do que o país a que nos habituámos a imaginar. Uma segunda guerra contra a Grã-Bretanha, logo no início do século XIX, viu Washington ocupada e a Casa Branca incendiada, e mesmo o famoso discurso de James Monroe contra a intervenção das potências europeias no Hemisfério Ocidental foi um bluff, pois o presidente americano, aconselhado pelo secretário de Estado John Quincy Adams, sabia que a Marinha britânica interviria em caso de tentativa dos países da Santa Aliança reverterem as independências das colónias espanholas. Só depois da Guerra Civil, quando a industrialização acelerou no Norte, e novas levas de imigrantes chegaram da Europa, se deu a ascensão dos EUA para o estatuto de potência mundial. Um estatuto comprovado em 1898 quando os americanos derrotaram a Espanha e ficaram com pedaços do antigo Império Espanhol, de Porto Rico às Filipinas, passando por Guam.

Mas já que se fala tanto do Corolário Trump da Doutrina Monroe, olhemos para 1904, quando Theodore Roosevelt, popular presidente eleito para um segundo mandato, decidiu reinterpretar à luz da nova força do país o discurso de Monroe em 1823: assim nasceu o Corolário Roosevelt da Doutrina Monroe, mais do que a América para os Americanos, a assunção de que os EUA tinham um pátio das traseiras onde punham e dispunham, no essencial o Mar das Caraíbas.

E o que se passava no resto do mundo em 1904? Os europeus estavam empenhados na colonização de África e da Ásia, como se pode ver pelas notícias da época de incursões britânicas no Tibete ou a violência dos alemães na atual Namíbia e dos holandeses no que é hoje a Indonésia. Grã-Bretanha e França tinham os maiores impérios coloniais, mas a Alemanha colecionava possessões até na China, e o seu crescente poder causava tal preocupação na vizinhança, na própria Europa, que nesse ano, de forma discreta, nasceu a Entente Cordiale, a aliança franco-britânica que nas duas Guerras Mundiais que se seguiriam seria o núcleo duro de uma das facções beligerantes.

A China, por seu lado, vivia os momentos finais da Dinastia Qing, com a modernização tentada pela imperatriz viúva Cixi a não evitar uma semicolonização pelas potências europeias, com a chamada Revolta dos Boxers a ter sido reprimida três anos antes por uma coligação de Exércitos estrangeiros que incluía os EUA e o Japão. Depressa chegaria a República, mas depois dessa falhar viria a República Popular.

E, por falar em Japão, 1904 é o ano em que se inicia a Guerra Russo-Japonesa, cujo desfecho surpreendente, a vitória japonesa, deixou evidente a transformação em meio século de país fechado ao mundo em potência asiática. Foi uma guerra que, somada à de 1895 contra a China, fomentou um imperialismo japonês que só seria travado pelos EUA na Segunda Guerra Mundial.

Quanto à Rússia, a derrota frente ao Japão originou a Revolução de 1905, que não serviu de alerta suficiente a Nicolau II. E não esquecer que foi de novo o mau desempenho do Exército russo na Primeira Guerra Mundial que desencadeou a Revolução de 1917 e, finalmente, o derrube do czar. 

Voltando aos Estados Unidos, 1904 foi o ano em que se inaugurou a primeira linha subterrânea do metro em Nova Iorque e em que se realizaram os Jogos Olímpicos de St. Louis, em paralelo com a Exposiçao Internacional. Foi também o ano em que engenheiros militares americanos iniciaram os trabalhos para a construção do Canal do Panamá, país cuja independência da Colômbia foi conquistada no ano anterior com apoio dos EUA —Corolário Roosevelt ainda antes da sua formulação oficial, que nasceu da necessidade americana de prevenir a repetição do bloqueio naval que uma frota conjunta britânica, alemã e italiana impôs em 1902-1903 a uma Venezuela que se recusava a pagar a dívida externa.

Complexo? Sim. E a nossa época também não o é? Foi, aliás, em 1904 que o britânico Halford John Mackinder escreveu O Pivô Geográfico da História, essencial para se perceber o que é a geopolítica.

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