Espanhol e Português: línguas de futuro

Tem hoje início, em Brasília, a 2.ª Conferência Internacional das Línguas Portuguesa e Espanhola (CILPE2022). A primeira CILPE teve lugar em Lisboa, nos finais de 2019, e foi um grande e inesperado sucesso pela capacidade que teve de colocar em diálogo duas línguas próximas que representam, em conjunto, 850 milhões de falantes em quatro continentes, dois idiomas com grande potencial de projeção internacional, mas que tradicionalmente estão de costas voltadas.

Importa destacar que a CILPE não é um encontro que se fecha em si mesmo. Trata-se de um processo de reflexão com várias etapas em que participam responsáveis institucionais e conceituados especialistas de diferentes países das duas comunidades linguísticas, que contribuem pela sua diversidade para uma visão plural plasmada nos roteiros de ação conjunta, com o objetivo de valorizar cada uma das línguas e, por extensão, promover o desenvolvimento das suas regiões.

Por várias razões, esta segunda conferência distingue-se da primeira que, no entanto, teve um papel fundamental na identificação de temas e áreas de trabalho. Se, em 2019, havia dúvidas sobre o interesse desta reflexão conjunta, depois da sua realização, ganhou evidência que a cooperação entre as duas línguas as torna mais fortes, num mundo cada vez mais competitivo em que as línguas representam poder e têm relevância em todos os domínios, com destaque para a economia e as rotas comerciais.

Não duvidemos. Trata-se de duas línguas de futuro, não apenas pelo exponencial número de falantes previsto até final do século, como pela posição geopolítica que ocupam, pelos recursos naturais que representam e ainda pelos parceiros regionais com que se interligam.

Na primeira CILPE, o debate centrou-se na demografia das duas línguas, os fatores para a sua internacionalização, a sociedade digital, a relação com a economia, as línguas na educação e na cultura, bem como o plurilinguismo que caracteriza os dois espaços linguísticos. Seguindo as conclusões, a OEI lançou, apoiou e desenvolveu várias iniciativas, consolidando e criando parcerias. Destaco os projetos de educação intercultural bilingue em regiões de fronteira entre o Brasil e os países limítrofes, entre Portugal e Espanha; o relatório sobre a produção e difusão científicas em espanhol e português; ou as residências poéticas que juntam criadores das duas línguas, iniciativa que tem o apoio da CPLP e se concluirá em maio, por altura do Dia Mundial da Língua Portuguesa.

Pelos avanços alcançados no diálogo entre línguas e as regiões onde se encontram, é com grande satisfação que vemos esta nova CILPE contar, uma vez mais, com apoios que dão continuidade a um esforço que tem de ser partilhado e transversal. Tal como na primeira edição, a OEI organiza esta conferência em colaboração com a CPLP, a Secretaria-Geral Ibero-americana (SEGIB), o Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), os Institutos Camões e Cervantes, além do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, país anfitrião.

Nesta edição, serão debatidos temas que projetam o futuro das duas línguas. O título da CILPE2022 - Línguas, Cultura, Ciência e Inovação - aponta para grandes desafios que o espanhol e o português enfrentam se quiserem reforçar a sua posição de línguas globais. Não basta a previsão do crescimento demográfico ou o potencial que representa estes países disporem de importantes recursos naturais. Apesar do reconhecimento do seu potencial, espanhol e português têm de deixar de ser línguas de países pobres e apostar na ciência, na tecnologia, na inovação. Estratégias que reforcem a sua presença em repositórios científicos de acesso livre ou a aposta essencial na Inteligência Artificial, permitirão ao português e ao espanhol entrar no campeonato da primeira liga das línguas.

Também a cultura digital é um desafio que permitirá a democratização do acesso, a preservação das culturas locais e, ao mesmo tempo, mais retorno para os criadores.

Esperamos que muitos se juntem a nós nesta CILPE em modelo híbrido, forma de estarmos juntos em qualquer latitude. E, como diz o poeta, este é um caminho que se faz caminhando.

Diretora em Portugal da Organização de Estados Ibero-Americanos

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