Ensino e emprego em turismo

O binómio ensino e emprego é pertinente no contexto global em que vivemos, de que faz parte a propalada escassez de mão-de-obra em diversas áreas funcionais do sector turístico em Portugal. Este problema insere-se no contexto do desenvolvimento nacional e tem, na minha opinião, responsabilidades partilhadas.

Ensinando Turismo, existem mais de duas dezenas de instituições do ensino superior e uma dúzia de escolas do Turismo de Portugal (TP). No tecido empregador, por seu turno, temos uma rede diversa de oferta pública e privada, desde autarquias, empresas turísticas, agências de viagens, agentes de animação turística e alojamento local.

As instituições de ensino têm sido catalisadores na formação do capital humano, querendo preparar jovens para o primeiro emprego e qualificar as profissões turísticas mas, por vezes, atuam mais numa lógica empresarial e menos numa afirmação essencialmente pedagógica. Simultaneamente, nem sempre os jovens se sentem felizes no seu desempenho profissional, pela concorrência desenfreada interna nos locais de trabalho e pelas remunerações, e muitos são dispensados após um período de estágio ou primeiro emprego, também por causas assentes em disfunções com origem académica.

Noto que das licenciaturas com pior desempenho na relação ensino-emprego o destaque vai para o turismo. Nos 25 cursos com taxa de desemprego mais alta figuram 10 desta área do conhecimento (fonte: Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, com o apoio da Direção-Geral do Ensino Superior).

As consequências da pandemia reestruturam muito do que era a relação entre pessoas, mas o que importa sublinhar é a situação a que chegámos. Designadamente, 30% dos jovens portugueses pretendem emigrar (fonte: Fundação Francisco Manuel dos Santos). Se faz falta que o Estado dignifique carreiras e que o tecido empresarial seja mais forte e absorva mais emprego científico, inovação e valor acrescentado, também se torna imperioso que o ensino seja mais sedutor, os estudos e projetos académicos tenham mais aplicação prática, os alunos sejam estimulados para um pensamento rigoroso, honesto e fundamentado e, enfim, se saiba despertar talentos e fazer sonhar.

Neste contexto à escala do país e tomando como desejável que o ensino seja o centro da sociedade, descortino, por observação direta, problemas nos cursos que mantêm métodos obsoletos, programas curriculares resultantes de meros palpites e uma escassa promoção da cultura e da história, bem como assim, cursos que promovem trabalhos académicos sem linhas de investigação de suporte ou que propagam o facilitismo em detrimento da disseminação do método científico.

Realidades em que não me revejo, nem pactuo. E falo das universidades, dos politécnicos e das escolas do Turismo de Portugal.

Esperam-se, entretanto, os resultados do Tourism Training Talent, focado essencialmente no talento das pessoas, no desenvolvimento das capacidades interpessoais, na inovação e na internacionalização dos profissionais do Turismo, bem como dos protocolos entre o TP e as instituições de ensino superior, com vista ao prosseguimento de estudos dos alunos detentores de Diploma de Especialização Tecnológica.

Cônscio de que a relação entre ensino e emprego não passa apenas por informar adequadamente os alunos e fazer-lhes chegar as propostas das empresas ou do sistema público para estágios ou trabalho, urge: a) Apostar em programas atualizados e motivadores e em trabalhos académicos com interesse prático e visão empregadora; b) Apostar em professores criativos e integradores de áreas disciplinares e não em agentes da fragmentação disciplinar.

Quando presidi às comemorações nacionais do Centenário do Turismo em Portugal, em 2011 e 2012, defendi que o ensino deveria estar de mãos dadas com a conciliação de uma visão e uma marca nacional do Turismo e com uma abordagem regional e multissectorial, sendo necessário apostar nos recursos e produtos prioritários distintivos e agregar a estes os outros produtos, assim como ser competitivo essencialmente pela qualidade. E esta mede-se, também, pelo ensino e pelos recursos humanos.

Quando o júri de "Amadeus Brighter Awards 2015" me nomeou para Personalidade do Ano no Ensino, foram determinantes as boas ideias e a promoção de um futuro sustentável da atividade turística, o que obrigatoriamente envolve a divulgação da história e de uma visão integrada e qualificada do território.

Estou confiante de que os empregadores ainda possam contar com os recursos humanos dos diferentes níveis de ensino. Estou seguro de que os dirigentes do ensino não devam, porém, isentar da docência as mentes mais abrangentes e criativas, nem facilitar o cumprimento dos programas curriculares por parte dos alunos, para que estes se afirmem com maior credibilidade junto dos empregadores. Urge que ambas as partes se reestruturem, com base numa cultura de exigência, numa cultura de partilha e na criação de dimensão e marca. O futuro de Portugal agradece.


Pós-Doutorado em Turismo

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