Neste domingo e no próximo decorrem as eleições legislativas em França. Emmanuel Macron precisa de uma maioria presidencial na próxima Assembleia Nacional. Ou seja, de uma vitória da Ensemble, a coligação de partidos centristas que o apoia. Tendo presente as fraturas existentes em França, o peso do país na política e na economia europeias, e a complexidade da situação internacional, espero que o consiga. Mas, acima de tudo, porque a alternativa seria uma coligação dominada por Jean-Luc Mélenchon, um narcisista lunático e demagogo, que propõe um programa irrealista. Nouvelle Union populaire écologique et sociale, Nupes, assim se intitula a amálgama que Mélechon conseguiu construir e que apresenta mais de trezentos candidatos do seu partido às eleições. Os outros parceiros estão lá como pau de cabeleira: cem candidatos ecologistas, sessenta do velho Partido Socialista, e cinquenta pelos comunistas..É uma coligação em que os extremistas ditam as regras do jogo e definem as balizas programáticas. A esquerda moderada limita-se a uma colagem oportunista para tentar evitar o naufrágio e salvar alguns lugares na Assembleia Nacional. Nupes é exatamente o contrário de que aconteceu em Portugal nos últimos anos. Aqui, os socialistas tratavam da agenda e os radicais eram convidados a bater palmas, quando necessário e sem o exercício do poder executivo. Se Mélenchon e os seus obtivessem a maioria parlamentar, a França entraria numa fase de populismo que levaria à explosão da dívida pública e acabaria na bancarrota. Note-se que neste momento, ainda longe das políticas fantasistas que Nupes propõe, o país já gasta mais de 60% no seu PIB em despesas públicas. Com Mélenchon, à crise financeira seguir-se-ia uma crise política, com sérias repercussões na Europa, tendo em conta o papel central que a França desempenha na UE..Repito: para o bem da França e a tranquilidade de quem acredita no projeto europeu, é essencial que o movimento que apoia Macron obtenha a maioria absoluta. Mas como já aqui disse, Macron tem de ser visto como um reformista próximo das preocupações populares. Essa é uma dimensão que qualquer líder tem de projetar, no complicado contexto em que vivemos..Na frente externa, a ambição de Macron é uma mistura nem sempre fácil de entender. Combina boas intenções, uma visão ampla com nacionalismo e muita presunção pessoal. Por um lado, quer uma UE mais soberana. Por outro, age como se a França e ele próprio devessem tomar a liderança na realização desse objetivo. É óbvio que vê em António Costa um aliado importante. Mas também é sabido que tem criado nestes últimos tempos algumas resistências na Europa do Leste. A insistência nas conversas com Vladimir Putin e a ambiguidade das suas declarações recentes contrariam o seu sonho de liderança europeia. Mais ainda, devem ser vistas no contexto de uma competição entre Macron e Erdogan, por quem nutre uma profunda antipatia pessoal e total desconfiança política..As eleições francesas ocorrem numa altura em que a Europa precisa de se manter coesa. E não apenas em relação à Rússia de Vladimir Putin, embora esse seja o desafio mais imediato. Na verdade, a UE tem conseguido preservar um bom nível de coerência na resposta a Putin. Digo isto, mas também reconheço que, no futuro, poderá ser mais complicado manter a unidade europeia. Os pacotes de sanções até agora aprovados são de um modo geral os mais apropriados. Combinam impactos imediatos com consequências fundamentais a prazo. Têm alguns custos para nós, mas esse é o preço a pagar para criar uma nova ordem europeia..A grande questão, para além das sanções, é a de definir que papel político pode a Europa desempenhar para que se encontre, tão prontamente quanto possível, uma solução que garanta a legítima defesa da Ucrânia e reconheça a sua soberania, o seu direito de viver em paz e de fazer as suas próprias escolhas políticas. É aí que Macron e outros devem concentrar os seus esforços de política externa. Para já, ninguém sabe como vai evoluir esta guerra e como será possível encontrar, urgentemente, antes que a situação resvale ainda mais, uma paz justa. E isso é muito preocupante.. Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU