Cultura portuguesa, com certeza

Que dizer sobre a prodigiosa peça Casa Portuguesa, com texto e encenação de Pedro Penim, em cena (até 16 de outubro) no Teatro D. Maria II? E como dizê-lo? Como lidar com uma proposta, de uma só vez radical e depurada, desafiando a nossa atual escassez de pensamento crítico (muito para lá do teatro)?

Ponhamos a questão em termos realmente culturais (o advérbio "realmente" é sinal de um desespero intelectual que, como é óbvio, o leitor poderá não partilhar). Lembremos que a cultura não é uma festa mediática pontuada pela alegria televisiva dos políticos, não depende do facto de a canoagem portuguesa ter ganho uma medalha no estrangeiro... O que, entenda-se, não exclui a canoagem da nossa vida cultural. Nem a projeção do vinho rosé além fronteiras. Nem os novos fados abrilhantados a bateria, contrabaixo e soluços de samba.

A cultura é a mais bela das contradições: não visa aniquilar o outro, mas é uma guerra. De quê? De ideias e valores. Faz-se das clivagens do nosso viver. Por mais genuína que seja a boa vontade com que nos abraçamos, iludidos pela certeza de que "somos todos portugueses", não há maneira, por exemplo, de conceber, proclamar ou justificar que a última telenovela e os mais recentes filmes de João Mário Grilo e João Botelho pertencem ao mesmo sistema de valores culturais.

Ser e não ser português: um drama que ecoa na notável Casa Portuguesa, de Pedro Penim, em cena no Teatro D. Maria II."

Daí a esquizofrenia (cultural, precisamente) em que vivemos. Andamos ensimesmados a especular sobre os estados de alma de Fernando Santos, a pertinência ou o absurdo da continuação de Cristiano Ronaldo na seleção, ao mesmo tempo que Casa Portuguesa não faz manchetes nem suscita calorosos debates. Perguntar-se-á: debater o quê? Talvez seja melhor assim. Talvez devamos acomodar-nos e celebrar, extasiados (incluindo o autor deste texto), os delirantes centímetros com que é cientificamente aplicada a lei do fora de jogo. O resto, isto é, a arte de tentarmos fazer circular ideias entre nós será coisa de somenos. E não dá medalhas.

Porquê a tristeza de sermos assim? Na sua maravilhosa alegria criativa, Casa Portuguesa envolve o reconhecimento dessa tristeza, quer dizer, o facto de a nossa volatilidade cultural passar pela resignação com que reduzimos a nossa história - com dramático destaque para a Guerra Colonial - a uma colagem de videoclips publicitários, acumulando simbologias pueris sem qualquer relação com o tremor dos nossos corpos e as incertezas das nossas ideias.

Afinal, a história é absurdamente simples. Eis a sua versão mais recente e com melhor cotação mediática: havia qualquer coisa lá muito atrás, mas não interessa... depois, veio o fascismo e ficámos às escuras; um pouco mais à frente, aconteceu o 25 de Abril e libertámo-nos; entretanto, não desesperemos porque, mesmo com a escusa de Rafa, talvez ainda sejamos Campeões do Mundo. Sem esquecer que podemos sempre ser eliminados jogando o melhor futebol do mundo - não fará história, mas sempre alimenta a mitologia, promove a venda de cervejas e renova o fascínio juvenil das cadernetas de cromos (uma vez mais, o autor do texto, comedido em relação à cerveja, não se exclui do ritual dos cromos).

Digamos, para simplificar, que o humor que tudo isto (também) envolve é lançado em palco pela fascinante performance de Lila Tiago e João Caçador, o duo Fado Bicha. Revisitando, recriando, perversamente celebrando a lendária canção Uma Casa Portuguesa (escrita no final da década de 1940 por Reinaldo Ferreira, Vasco Matos Sequeira e Artur Fonseca), surgem como uma variação insólita do "compère" da revista à portuguesa, mesmo se os efeitos cénicos da sua sofisticada presença rapidamente divergem, de alguma maneira aproximando-os da função do coro na tragédia clássica.

Entre realismo e pesadelo (será o pesadelo a forma suprema de realismo?), trata-se de acompanhar os encontros e desencontros de três personagens: um homem que transporta memórias traumáticas da guerra em África; a sua filha cuja militância, garrida e contagiante, se organiza em torno da certeza segundo a qual "os homens são lixo"; enfim, o filho dela, corpo ágil e palavra fluida, que parece condenado a viver assombrado pela herança literária e filosófica da Carta ao Pai, de Franz Kafka.

Tudo isto, por uma vez, é-nos dado - e doado - sem a mais pequena contaminação do sistema formal das telenovelas, esse vírus narrativo (entenda-se: industrial) que todos os dias vai compelindo talentosos atores a abdicarem do seu talento, ao mesmo tempo que promove jovens intérpretes condenados a funcionar como marionetas de tiques (in)expressivos copiados do universo publicitário.

João Lagarto aí está, ator imenso, de uma só vez carnal e abstrato, consumando com invulgar precisão aquilo que o texto de Pedro Penim lhe exige: expor a existência convulsiva da sua personagem, não a deixando cair num qualquer estereótipo moral ou ideológico. Sandro Feliciano é uma estreia admirável, um verdadeiro "natural" (como se diz no cinema americano), emprestando ao minucioso labor de composição a ilusão de uma espontaneidade feliz. Enfim, Carla Maciel é uma presença mágica no palco (e no ecrã, permito-me acrescentar), como se as palavras tivessem chegado um pouco antes ao território do palco, sendo ela a encarnação humana do seu fulgor - e também dos silêncios que transportam.

Vida e morte em Portugal - eis um subtítulo possível para esta Casa Portuguesa. Vida que resiste. Morte que aconchegamos, sem saber que lugar lhe atribuir no obstinado desejo de viver. Seremos, talvez, máscaras teatrais dessa cruel ambiguidade de ser que Kafka formula na Carta ao Pai (cito a tradução de Manuel João Gomes, edição & Etc., 1983): "Nada, realmente, nem mesmo a tua desconfiança em relação aos outros, iguala a minha desconfiança em relação a mim próprio, desconfiança em que fui por ti educado."

*Jornalista

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