Bolsonaro não paga imposto 

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Qualquer empresário disposto a investir no Brasil sabe que tem de enfrentar o Imposto sobre Produtos Industrializados, a Contribuição para o Financiamento da Segurança Social e o Programa de Integração Social, no contexto federal, mais o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, no plano estadual, e o Imposto Sobre Serviços, de natureza municipal. Cansa só de ler.

E piora: os cinco tributos entrelaçam-se, como um emaranhado de fios desencapados, causando curto-circuitos de pesadas multas às empresas. Para evitá-las, os empresários são obrigados a manter onerosos departamentos de contabilidade.

Mas não chega: com frequência, as multas vão parar aos tribunais e saem de lá, por culpa das coimas e dos juros, muito mais assustadoras do que chegaram. Além da multidão de contabilistas, os empresários gastam, portanto, fortunas em batalhões de advogados tributaristas que se foram especializando, com o tempo, a driblar as distorções malucas dos impostos doidos.

Exemplos: aconselham os restaurantes a venderem o popular "sorvete" sob a denominação "sobremesa láctea", porque se se chamar "sorvete" paga 9,25% de imposto, mas se for uma "sobremesa láctea" (mesmo sendo um sorvete como os outros) está isento, e as lojas de cosméticos a comercializarem um "perfume", taxado em 27,3%, como "água de colónia" (mesmo sendo um perfume como os outros), para pagar apenas 7,8%.

Por causa deste inferno burocrático que consome a economia brasileira, há mais de 30 anos que o Congresso Nacional vinha tentando, sem nunca ter encontrado o clima político ideal, aprovar uma "reforma tributária" que simplificasse e clarificasse a confusão fiscal do país.

Essa reforma, "a mais importante do Brasil desde a que implantou o real como moeda", de acordo com Samuel Pessôa, economista liberal, e "o único jeito de aproximar o país da riqueza", segundo Maílson da Nóbrega, ministro das Finanças do direitista José Sarney, foi aprovada neste mês, para júbilo dos empresários, do mercado financeiro, da bolsa e do real, mas também dos trabalhadores, dos sindicatos, dos governadores e dos prefeitos.

Deputados de Direita e de Esquerda, há meses empenhados na proposta que concentra os impostos todos em apenas dois mais simples e mais claros, abraçaram-se num raro momento de união em torno de uma política de Estado - muito mais do que de governo.

Até os rivais nas Eleições de São Paulo em 2022, Fernando Haddad, hoje ministro das Finanças de Lula, e Tarcísio de Freitas, tido como sucessor do inelegível Bolsonaro, explicaram na véspera da votação, lado a lado, os benefícios incalculáveis de uma reforma que aproxima o Brasil do mundo civilizado.

Entretanto, Tarcísio não conhecia o potencial destrutivo das más companhias com quem se meteu: foi imediatamente chamado de marxista para baixo pelos bolsonaristas por defender a reforma e, ainda por cima, ao lado de Haddad.

Porque Bolsonaro, que podia reduzir a desvantagem deste jogo, argumentando que a reforma era mérito de todos, escolheu mandar o seu gado votar contra ela. Não só foi goleado - 375 deputados votaram "sim" - como humilhado - entre esses 375 estavam 20 parlamentares do seu partido. Mais: ao preferir enfrentar o governo por politiquice rasteira transformou uma vitória até então repartida por Esquerda e Direita num triunfo pessoal de Lula.

Para sorte de Bolsonaro, a estupidez não paga imposto.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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