Agora chora

Sou pró-escolha (com limites e várias reservas). Mas não estou indignada com, após quase meio século, os EUA terem proibido o direito à interrupção voluntária da gravidez. Eis porquê:

1) Nas terras de Uncle Sam esse direito nunca existiu. Roe vs Wade foi um remendo, um expediente para impedir que alguém fosse acusado do crime de aborto. Supostamente, mais de 60% dos americanos são favoráveis ao aborto, mas mulheres, a sociedade estado-unidense, a comunicação social, as administrações democratas e liberais, as instituições, congressistas, senadores, os governos estaduais, nunca lutaram para criar uma lei que substituísse o antecedente frágil criado por esse caso judicial de 1973. O poder democrata que tantos aplaudiram por cá, sempre preferiu o taticismo, contagem de votos e a popularidade, a realmente fazer qualquer reforma digna desse nome, seja no sistema de saúde, seja relativamente às armas. Relativamente à IVG tiveram quase 50 anos. Mas não se mexeram. Carpir agora, rasgar as vestes, uivar à Lua é só hipócrita. Tartufo.

2) Também raramente se viram defensores do aborto a contestar o poder do Supremo Tribunal americano, clamando por mais neutralidade e menos pressão política. É irónico que o pretexto para essa corte da Justiça assim decidir tenha vindo de quem atacava a legislação restritiva do Mississípi. Pior é que Roe vs Wade cai com um presidente do Supremo que tantas vezes vota liberal.

3) Um dos principais argumentos dos pró-escolha sempre foi o direito da mulher decidir o que fazer com o seu corpo. "Nesta barriga mando eu". "O útero é meu", etc. Acontece que, desde Março de 2020, a dita esquerda abdicou destes princípios. Todos - mulheres, homens e crianças - deviam ser obrigados a testarem-se (Macron lá fugiu ao PCR de Putin alegando possibilidade de roubo de material genético), a confinarem os seus corpos (sem liberdade, sem sol, sem exercício) e, sobretudo, a vacinarem-se, ainda por cima com produtos experimentais. Ou seja, as posições acríticas sobre a covid dos mesmos que gritam "Meu corpo, minhas regras" abriram esta caixa de Psique, trilharam a vereda desta regressão de direitos humanos. Ou acham que impor uma vacina supostamente para impedir contágio (o que, já sabemos, nem sequer se confirma), representa menos direitos conflituantes do que a morte de um bebé que podia nascer e viver feliz?

4) Os mesmos que agora se mandam ao alto com esta decisão de Washington fecham os olhos ao que se passa em países como a Polónia, onde as restrições de acesso à IVG são muito apertadas, inclusivamente em caso de grave mal-formação do feto. E fingem que não vêem porque, devido às posições que assumiram relativas à invasão da Ucrânia, agora Varsóvia deve ser vista como modelo de virtudes, ocultando ou distorcendo tudo o que for preciso, desde abafar-se a instrumentalização do respectivo poder judicial até permitir que os polacos recusem cumprir as decisões do Tribunal de Justiça da União Europeia. Lá está: bigotismo sem limites.

5) Por fim, sabemos todos quem amargará com estas estratégias erráticas e eivadas de fingimento: as mulheres mais pobres que, dificilmente, terão acesso a meios para contornar a interdição da IVG. Muitas, pagarão com a vida. Resta saber qual direito guilhotinado se segue. Talvez os próximos sejam os que agora choram lágrimas de crocodilo.

Psicóloga clínica. Escreve ​​​​​​​de acordo com a antiga ortografia.

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