À sombra e água fresca

Deixem que vos roube um pequeno sorriso. Pois bem: entre as disponíveis, a tecnologia mais eficiente que temos contra o calor é a árvore. E, naturalmente, a água é indispensável.

Sabemos como construímos as nossas cidades: a saturação dos materiais que absorvem a radiação solar - aço, asfalto e betão - mantém picos de temperatura persistentes que desencadeiam o uso do ar condicionado, multiplicando o calor. E a pergunta é: como se arrefecem, como se refrescam? Pois bem, uma investigação da Bloomberg combinou imagens da Agência Espacial Europeia com dados abertos da NASA e do Serviço Geológico dos Estados Unidos para fazer um mapa térmico das cidades mais afetadas pela onda de calor.

De lés-a-lés, entre as selecionadas, identificaram os lugares mais quentes de cada uma e, em seguida, os mais frescos, para assinalar onde estão e descobrir o porquê de tamanhas diferenças de temperatura entre zonas de uma mesma cidade. Entre as conclusões, ficamos a saber que a tecnologia mais eficiente contra o calor é a árvore. Um parque local baixa a temperatura entre dois e seis graus; uma fileira de árvores pode refrescar a superfície de uma rua até 12°. E, é claro, as grandes concentrações de água, rios, canais e lagos têm o mesmo efeito. E depois, há os materiais. Algumas das cidades mais quentes do mundo mais rico estão a cobrir telhados e estradas com materiais refletores, para reduzir o aquecimento dos prédios e reduzir o uso de ar condicionado, que, além do calor, desencadeia maior consumo de energia, aumenta a conta da luz, a poluição e as emissões.

As palavras podem ter a magia de nos transportar para um lugar fresco e descrever um copo de água. Não podem, porém, matar a sede. Por enquanto, a mais eficiente das tecnologias contra o calor é uma árvore.

As alterações climáticas fazem estragos também na água, esse recurso vital. Não só porque é essencial para a nossa existência e para o ambiente, mas porque, ao contrário do ar que respiramos ou da energia emitida pelo sol, é um recurso escasso que se renova constantemente. O copo de água que bebemos hoje é a mesma água que um dinossauro bebeu há milhões de anos. É, portanto, um recurso finito, mas insubstituível, que deve ser distribuído de forma mais equilibrada entre os que habitamos este planeta, os seres humanos - cada vez mais numerosos - e nosso ambiente natural, cada vez mais deteriorado, onde o uso irrestrito da água cresceu duas vezes mais rápido que o crescimento populacional no último século.

As secas são cada vez mais frequentes e intensas, como é visível em toda a zona mediterrânica e, em particular, na Península Ibérica. Aqui, onde os rios secam e os reservatórios estão à míngua, procuram-se soluções de emergência para enfrentar a seca, que é severa (55%) e extrema (45%) na totalidade do território de Portugal Continental, exponenciando o risco de incêndios e a sua propagação - também estes combatidos com água. Aqui e acolá, suspendem-se regas, fecham-se piscinas, raciona-se o abastecimento.

Como qualquer recurso escasso, a distribuição da água tem de ser gerida. Ora como não se pode administrar o que não se tem, a disponibilidade da água que temos é o ponto de partida para gerir a procura. Entre nós, há comissões para tudo e com bonito nome. Nas vésperas de mais uma reunião (dia 24) da Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos Efeitos da Seca, ficamos a saber que as áreas de regadio utilizam 75% da água em Portugal e desperdiçam mais de um terço. Ora, num cenário de alterações climáticas, não basta monitorizar a seca. É obrigatório repensar a política agrícola para avaliar que regadios são sustentáveis, travar as promessas de falsas ampliações que geralmente não se cumprem e perseguir com toda a dureza da lei a persistente abertura de poços ilegais. Por enquanto, as palavras podem ter a magia de nos transportar para um lugar fresco e descrever um copo de água. Não podem, porém, matar a sede.

Jornalista

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