A pandemia e a juventude têm um rosto humano

Dia 12 de agosto de 2019. "Enfrentamos uma crise de aprendizagem", alertava o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, aquando da celebração do vigésimo Dia Internacional da Juventude. A mensagem, partilhada antes do início deste acontecimento único e universal que é a crise pandémica, viria porventura a ganhar em perenidade e em recomendação para as/os jovens, educadores e governantes, sobre as experiências vividas intensamente nos últimos quase 18 meses, como que antecipando toda uma geração concentrada neste curto e simultaneamente longo espaço de tempo (podemos escolher olhar sob ambas as perspetivas)!

Sobre a educação, ressalta da sua mensagem a importância da inclusão, do acesso à mesma, e da relevância prática das aprendizagens numa sintonia com o mundo atual. Nada mais verdadeiro e amplamente discutido sempre que se quis/quer combater as desigualdades face à educação! Nada que não tivesse resultado na objetiva necessidade de capacitar os jovens e os seus professores para a transição antecipada e forçada para a digitalização, de que se falava nos últimos anos! Nada que não tivesse impulsionado os governantes e as lideranças escolares a refletir (mais) sobre como podemos ajudar os jovens a "aprender a aprender", como tão bem refere António Guterres, transformando os seus conhecimentos, capacidades, atitudes e valores num conjunto de competências para a vida, tão simplesmente fundamentais para lidar com os impactos da pandemia, num curto, médio e longo prazo! Nada que não viesse reforçar, como prioridade anotada pelos próprios jovens, na sua Agenda da Juventude para a Saúde 2030, a necessidade de uma verdadeira aposta no desenvolvimento das suas competências emocionais e sociais, como forma de responder à sua visão para a sua saúde psicológica e para o seu bem-estar, proposta apresentada pelo Conselho Nacional de Saúde no dia 21 de maio. Se ainda não estão convencidos, vejamos:

Níveis mais elevados de ansiedade e de incerteza generalizaram-se por todo o mundo neste último ano e meio, colocando em causa a saúde psicológica e o bem-estar das populações, e dos jovens em particular. Em contraciclo, a edição de março de 2021 do Relatório Mundial da Felicidade analisa os três últimos anos (2018 a 2020), abrangendo quase um ano de restrições provocadas pela pandemia e pelos seus impactos, e a Finlândia, a Dinamarca, a Suíça e a Islândia mantêm-se nos quatro primeiros lugares dos países mais felizes (análise conjunta dos três anos), mantendo a primazia nos países nórdicos cujas modestas oscilações nos resultados gerais que abarcaram o conjunto dos indicadores parecem indicar que estão mais preparados para lidar com a pandemia e mais resilientes (o relatório recolheu indicadores relativos aos efeitos da covid-19 na felicidade e o sucesso dos países face a algumas medidas relativas à saúde e à conectividade social). No que respeita à relação da educação e da saúde, não pode aqui ser alheio o facto de a Dinamarca integrar nos seus currículos uma hora diária de desenvolvimento de competências sociais e emocionais como a empatia, dos 6 aos 16 anos, de onde se evidencia o claro sucesso de uma abordagem que requer toda uma cultura escolar centrada neste mindset de desenvolvimento de competências, assente em metodologias psicológicas e pedagógicas específicas, numa aposta no desenvolvimento dos profissionais da escola para responder a este desígnio, e na extensão destas condições ao longo da escolaridade e na vida adulta.

A pandemia tem um rosto humano. A juventude também. A adoção de um único comportamento pró-saúde ou pró-social implica que os jovens mobilizem um conjunto de competências sociais e emocionais como a capacidade de tomar decisões sobre a sua própria vida e sobre a vida das pessoas, para a qual concorre tão sublimemente a empatia: uma vontade e um saber colocar-se no lugar do outro, regozijar-se com as suas alegrias mas também ter compaixão pelo seu sofrimento, respeitar a sua opinião e encetar tomadas de decisões em conjunto, com espaço para uma participação solidária. Celebrar a juventude também é colocar a ciência psicológica, as entidades governamentais e administrativas, as organizações educativas, os psicólogos e outros profissionais da escola, os professores e as famílias ao serviço do desenvolvimento das competências socioemocionais das/os jovens, cumprindo-se assim uma das grandes prioridades que elas/eles próprias/os elegeram para a sua Agenda da Juventude 2030! Ser empático é também saber escutar os jovens e as suas propostas ou, por outras palavras, à luz do psicólogo humanista Carl Rogers, "ver o mundo através dos seus olhos, e não ver o nosso mundo refletido nos olhos deles".

Vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses

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