I think it better that in times like these A poet"s mouth be silent, for in truth We have no gift to set a statesman right Yeats.Um grupo de escritores portugueses, convidado para a Bienal do Livro de S. Paulo, provocou escândalo, no âmbito dos reduzidos círculos que se interessam em Portugal pela vida literária, em razão das frequentações pouco aconselháveis que se permitiu durante este certame, destacando-se um jantar em que todo o grupo abancou, sorridente, ao lado de contestáveis e contestadas personalidades..Que se terá passado? Quem eram essas personagens pouco recomendáveis com quem os nossos escritores se mostraram e exibiram em amistosa confraternização, que chocou algumas consciências? Barões da droga? Líderes das favelas? Representantes dos gangs mais notáveis da capital paulista? Nada disso. Políticos e governantes. O nosso Presidente da República e o nosso ministro da Cultura. O horror, o horror....Costuma queixar-se a gente das letras do descaso a que a vota a sociedade. Os livros cada vez menos lidos, o valor simbólico de escritas e escritores na sociedade e no espaço público em decréscimo crescente e evidente, tudo isso causa preocupação e repúdio..No entanto, aqueles que sofrem com a ausência de reconhecimento do gesto literário no espaço público, são muitas vezes os mesmos (quando se trata de verdadeiros autores e não de meros vendedores de livros a metro) que reivindicam para a literatura a missão de viver em radical oposição à sociedade em que vive e de ser irredutivelmente rebelde a qualquer diálogo com qualquer poder público, seja ele qual for..CitaçãocitacaoNão serão afinal os puritanos fundamentalistas da literatura os verdadeiros Jdanovs do nosso tempo?esquerda.Esse papel da literatura é honroso e coloca-a ao lado do pensamento crítico radical, que tanta falta nos faz. Mas retira qualquer legitimidade aos seus defensores de se virem queixar da indiferença da sociedade e do público (cada vez mais condicionado e manipulado pelos meios técnicos de dominação ideológica e cultural) face às suas obras e produções..Se não é legítimo aos escritores conviverem com os poderes públicos, porque a sua missão seria antes, no dizer de um nosso exaltado crítico e poeta, "abalar as colunas da República", não podemos deixar de reconhecer que o abalo dessas colunas tem vindo de muitos lados, sim, mas de forma alguma da literatura, e que a benevolência dos poderes públicos permite vender lá fora o nosso património literário e dá-lo assim a conhecer a um público mais alargado..Por certo tinha razão Julien Gracq quando dizia que a escrita se dirige ao coração de um leitor desconhecido e não à criação de uma mercadoria de consumo. Mas como encontrar esse leitor, se os melhores livros continuarem ignorados e submergidos, soterrados sob tanta paraliteratura e escória escrita? Como renunciar, num gesto nobre e cheio de pudor, a qualquer difusão e divulgação da obra, sem perder de todo a comunicação com o público, com os leitores, sem os quais a escrita não vive?.Não, nenhuma literatura abalou duradouramente as colunas de nenhuma República e o mais honroso papel cabe àqueles poetas que, pela sua insubmissão, foram vítimas dos totalitarismos e das ditaduras, como, no limite, Mandelstam e Akhmatova. Mas é difícil ver no nosso Presidente o rosto de Estaline ou no nosso ministro da Cultura o perfil de Goebbels. Não serão afinal os puritanos fundamentalistas da literatura os verdadeiros Jdanovs do nosso tempo?. Diplomata e escritor