No meu tempo de criança as vitórias políticas eram festejadas como se estivesse em causa a Liga dos Campeões. As pessoas saíam para a rua e era sempre até de madrugada. Agora nem as jornadas da bola se adiam, o Benfica joga à mesma hora em que as televisões nos oferecem projeções. Quando terminar de escrever sairei para festejar o que nos une. As circunstâncias transformaram a vitória esmagadora do novo Presidente da República numa conquista maior do que uma simples eleição. Representou um ato de resistência e de esperança num futuro decente para os nossos filhos e netos. É provável que daqui a bocadinho não encontre ninguém na rua para abraçar, mas sairei à mesma. Celebrarei a esperança de cada bebé por nascer, de cada parto assistido por Joana Gomes, enfermeira de Setúbal que fotografa os bebés e as suas mães numa homenagem ao milagre de estarmos aqui. Cada fotografia sua, cada gravidez desejada e cada criança que nasce, é um apelo a que sejamos o melhor que conseguirmos ser. Um apelo e o desejo de que aquele pequeno conjunto de partículas por deslindar seja bom e respeite as diferenças do mundo. Sairei de casa e festejarei com convicção absoluta a vitória da decência. Farei isso por cada um dos meus filhos, pela Joana fotógrafa da esperança e até pelos que votaram no candidato que carrega a náusea do ressentimento. Gostaria que, no mais fundo de si próprios, pensassem nos vossos filhos por nascer, no bom que seria se fossem pessoas que não semeassem ervas daninhas na sua alma em construção.