A Europa fora das olimpíadas do digital

O progresso da era digital, que conheceu uma aceleração ao longo da última década, será ainda mais rápido, profundo e abrangente nos próximos anos. Vêm aí grandes transformações no processamento e utilização da informação, com avanços surpreendentes em matéria de inteligência artificial, redes 5G, novas gerações de microprocessadores, técnicas de impressão 3D e na proteção dos sistemas cibernéticos face aos ataques hostis. Essas transformações terão um enorme impacto no exercício do poder político, na economia e no funcionamento das sociedades, nas atitudes individuais, bem como nas relações internacionais.

Os megainvestimentos no domínio digital ocorrem hoje nos Estados Unidos, China, Taiwan, Coreia do Sul e Japão. Estes três últimos produzem 60% dos semicondutores e avançam a passos acelerados para processadores mais velozes e eficientes, e muito menos glutões em termos de consumo energético.

Onde se situará a Europa neste novo quadro tecnológico? Ursula von der Leyen, na semana passada, definiu o domínio digital como uma prioridade. A UE produz atualmente cerca de 10% dos semicondutores fabricados a nível mundial. Perdeu imenso terreno nos últimos 30 anos. Em 1990, representava 44% da produção mundial de transístores. A ambição definida pela presidente da Comissão Europeia é a de conseguir chegar aos 20% em 2030. Para isso, será necessário mobilizar investimentos públicos e privados na casa dos 160 mil milhões de dólares americanos. Não será fácil. É muito dinheiro, mas insuficiente quando comparado com os planos de outros. A Coreia do Sul, por exemplo, está pronta para investir 450 mil milhões de dólares. A empresa Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC), número um mundial na produção de chips, irá investir 100 mil milhões de dólares, nos próximos três anos, na expansão da sua capacidade. Curiosamente, uma parte desse investimento terá lugar na China, do outro lado do estreito, e outra, nos Estados Unidos. Assim se criam interdependências estratégicas.

O atraso europeu não existe apenas no domínio dos processadores. Estamos fora da liga dos campeões, no que respeita às plataformas tecnológicas. Quando se olha para as dez maiores, nota-se que seis são americanas e quatro chinesas. As plataformas que conhecemos, nesta parte do mundo onde nos inserimos, tais como Facebook, Twitter, Netflix, Google ou ainda Uber, Airbnb ou Booking, têm todas uma ou várias concorrentes chinesas (Tencent, Weibo, WeChat, Baidu, iQuiyi e mais).

O nosso quadro também não é dos melhores quando se trata dos chamados unicórnios. Muitas das novas aplicações e tecnologias são desenvolvidas por empresas recentemente estabelecidas, que o mercado de capitais avalia acima dos mil milhões de dólares e designa por unicórnios. Essas empresas são agentes criativos muito importantes nas áreas da inteligência artificial, dos softwares financeiros, do e-comércio e da e-logística. Os gigantes digitais seguem-nas com atenção e acabam por adquirir as mais inovadoras. Hoje, o inventário dos unicórnios soma 827 empresas. Destas, apenas 57 estão sediadas no espaço da UE, com a França e Alemanha em vantagem absoluta na minúscula quota europeia.

Perante isto, o que significa soberania digital na UE? A pergunta é ainda mais pertinente se se tiver em conta a correlação entre defesa e inteligência artificial (IA). Um relatório recente da Comissão Nacional de Segurança sobre a Inteligência Artificial, uma comissão norte-americana, demonstra que a grande competição com a China, em matéria de defesa, passa prioritariamente pela IA. Quem ganhar essa corrida ficará com uma vantagem crítica sobre o outro lado. A UE está fora desse campeonato.

Restam muitas outras interrogações, relacionadas com a proteção dos direitos das pessoas, o combate à manipulação da informação, ou ainda o significado da democracia nos tempos robóticos. Todas elas são importantes. Mas, para nós, europeus, o desafio fundamental é definir com clareza um plano que permita à UE saltar da periferia para o centro da questão digital.

Conselheiro em segurança internacional.
Ex-secretário-geral adjunto da ONU

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