A conquista do inútil

Ele há mesmo coincidências, ou coisa que o valha, pois, que eu saiba, existem não um, nem dois, mas nada menos do que três livros com o título A Conquista do Inútil ou Os Conquistadores do Inútil. Um, académico, de Jean Kempf, sobre os fotógrafos dos conflitos americanos na viragem do século XXI; outro, porventura o mais conhecido (e até cá publicado, na magnífica colecção de literatura de viagens da Tinta-da-china), de Werner Herzog, sobre a atribulada rodagem do filme Fitzcarraldo nos confins da Amazónia; e o último, de Lionel Terray, sobre os heróis que primeiro escalaram os grandes picos, dos Alpes aos Andes, da Patagónia ao Anapurna.

Poucos títulos resumiriam melhor o que é o alpinismo, uma actividade que, com todo o respeito, é perfeitamente inútil e desnecessária, residindo aí, justamente, a sua deslumbrante beleza. Na verdade, se exceptuarmos os trabalhos de levantamento topográfico, uma ou outra experiência científica que se realize nas alturas, as medições que se façam lá no alto à resistência do corpo humano, ou a recompensa para o ego e para o bolso dos grandes montanhistas, nada de tangível e prático existe na subida a picos com milhares de metros de altitude. Dir-se-á que na generalidade dos desportos também é assim, que nada de útil se extrai de dar pontapés numa bola, de saltar com apoio de uma vara ou de fazer piscinas umas atrás das outras, mas aqui há um mar de diferenças: desde logo, qualquer um pode, melhor ou pior, jogar futebol ou ténis, enquanto o montanhismo está só ao alcance de alguns; por outro lado, e mais decisivamente, quem ousa a escalada corre sério risco de vida, sendo às centenas os que, ao longo da História, têm perecido nessas jornadas celestes, ou saído delas com graves mazelas. Para quê arriscar a vida apenas para subir a um pico, estar lá um par de minutos, e depois regressar às pressas até cá abaixo? Que impulso, que força íntima e oculta leva alguém a dar a vida por uma montanha?

Nem todos têm, contudo, uma visão tão poética e desinteressada do alpinismo. Na Rússia dos sovietes, por exemplo, ele foi convertido numa empresa ideológica ao serviço do poder de Estaline, no decurso de uma autêntica "politização da montanha", como lhe chama Cédric Gras num livro apaixonante, Alpinistes de Staline (Stock, 2020), narrativa sobre as atribuladas vidas de dois irmãos, Vitaly e Yevgueni Abalakov, que conheceram a fama e a glória na URSS, mas também, no caso de Vitaly, a prisão e o gulag no período das grandes purgas. É certo que em todo o mundo os poderes públicos tentam apropriar-se do desporto e dos seus feitos por razões de promoção do orgulho nacional, mas a Rússia comunista levou essa obsessão ao extremo. Havia, antes de mais, uma razão propagandística óbvia, patente nos deliciosos nomes que eram dados aos cumes conquistados: além dos expectáveis picos Lenine e Estaline, houve o Pico dos Topógrafos de Guerra, o Pico do Komsomol, o Pico dos Comissários Vermelhos, o Pico Maurice Thorez, o Pico dos Partidários da Comuna, o Pico 26 Comissários de Bacu e até, imagine-se, o Pico da Primeira Sessão do Conselho Supremo da República Socialista do Quirguistão (!). Claro está que o Pico do Czar foi convertido em Pico Karl Marx e o da Imperatriz em Pico Friedrich Engels. Mais sinistros, alguns levavam os nomes dos chefes da polícia política - Dzerzhinsky, Yagoda - e os seus acrónimos, com um Pico OGPU e, mais tarde, um Pico NKVD (não sei se chegou a haver um Pico KGB...).

As frequentes purgas e quedas em desgraça faziam com que muitos montes fossem baptizados e rebaptizados várias vezes e, além da propaganda às glórias soviéticas, o alpinismo servia também como instrumento de enquadramento das massas e de formação da juventude, com excursões às montanhas com milhares de adeptos, mostrando-se que, ao contrário do Ocidente corrupto, em que imperava o individualismo "aventureirista", na URSS a subida aos picos era um trabalho colectivo, avesso a protagonismos pessoais, patrocinado por agremiações como a Sociedade do Turismo Proletário, e em que as grandes expedições contavam sempre com membros do operariado, mesmo que de montanhismo pouco soubessem. Em certas regiões do vasto império, o alpinismo tinha um outro objectivo: perante povos que ainda acreditavam no poder das montanhas mágicas e veneravam os seus deuses: a conquista dos cumes exercia uma função dessacralizadora e promotora do materialismo ateu.

Os irmãos Abalakov encarnaram, como ninguém, o espírito do alpinismo soviético. Naturais da Sibéria, na juventude começaram por escalar os Pilares de Krasnoyarsk, que desde os tempos dos czares foram paragem e refúgio dos contestatários - e, logo, um local mítico para os bolcheviques -, mas tiveram de disfarçar as suas origens burguesas para conseguirem singrar no novel regime igualitário. Depois, foram ambos para Moscovo: Vitaly, o mais velho, matriculou-se na Faculdade de Mecânica do Instituto Mendeleiev, enquanto Yevgueni foi estudar Belas-Artes com um nome que se converteria em lenda, a escultora Vera Mukhina, cinco vezes galardoada com o Prémio Estaline, e autora, entre outros portentos, da colossal estátua O Operário e a Camponesa (noutras versões, O Operário e a Mulher Kolkosiana) - 24,5 metros de altura em aço inoxidável, postados mesmo defronte do Pavilhão do Reich na Exposição Universal de Paris, de 1937, e depois trasladados para Moscovo, não sem antes terem merecido exaltados encómios de Pablo Picasso ("Quão belos são os gigantes soviéticos tendo por pano de fundo o céu lilás de Paris!", frase proferida no auge do Grande Terror estalinista, responsável por cerca de um milhão de mortes).

A ida para Moscovo não afastou os Abalakov da paixão pelas alturas: nos invernos, dedicavam-se a trepar à Colina de Lenine, na capital da URSS, e, no início de 1931, fizeram a sua primeira grande expedição, uma escalada do Monte Elbrus, no Cáucaso, a 5462 metros de altitude. O mais espantoso de tudo é que empreenderam esta e muitas outras subidas de enorme audácia em condições de frugalidade extrema, com escassíssimo equipamento, a ponto de, por exemplo, só um deles, Vitaly, caminhar com o auxílio de crampons (os picos que se prendem às botas para facilitar a progressão no gelo). Após este triunfo, atiraram-se a um pico ainda mais alto, 7000 metros, no vale do Pamir, uma aventura cuja importância política é atestada, entre o mais, pelo facto de ter sido liderada por Nikolai Gorbunov, antigo secretário de Lenine, organizador da matança dos Romanov e depois secretário do Conselho de Comissários do Povo, que nessa qualidade assinou o decreto que aboliu as classes sociais e o que criou o Campo de Trabalho no arquipélago de Solovetski, embrião do gulag. Além dos manos Abalakov e do sinistro Gorbunov, a expedição da "Unidade 29" era integrada, à boa maneira soviética, por um mecânico, por um operário da indústria automóvel, por um comunista austríaco e por dois pugilistas profissionais. Alguns morreriam na escalada, feita a temperaturas que raiaram os 45 graus abaixo de zero. No final, novo triunfo, permitindo que o cume conquistado ganhasse o mais glorioso dos nomes: Pico Estaline. Os jornais moscovitas noticiaram o feito com grande destaque nas primeiras páginas, ao lado de outra manchete estrondosa, a notícia da primeira fundição num alto-forno ucraniano, sito numa terra de que hoje muito se fala: Zaporjia.´

"Putin, note-se, não só ainda não perdeu a guerra como é incomensurável o grau de devastação que pode vir a causar, seja à Ucrânia, seja à Europa. Nunca subestimemos o poder destrutivo de um ditador insensível ao sofrimento alheio, a começar pelo sofrimento do seu próprio povo."

Nenhum dos membros da expedição era alpinista profissional e a recompensa monetária que cada qual recebeu foi de 105 rublos e 11 copeques, o equivalente ao preço de um sobretudo numa loja popular de Moscovo. Não os movia o dinheiro, obviamente, antes a alegria de fazerem parte de uma grande epopeia: a criação de um "homem novo", o homo sovieticus, na qual o montanhismo servia como zakaliatsa (literalmente, "temperar-se" ou "endurecer-se" como o aço), escola de coragem e de abnegação, de abandono da ambição individual em nome da segurança e do triunfo do grupo. Nas escaladas, os jovens camaradas levavam consigo placas comemorativas, até bustos de Lenine ou Estaline, que deixavam nos cumes para assinalar a primazia das suas proezas. Em certas montanhas, já conquistadas por estrangeiros, com destaque para os nazis, foi-se ao ponto de retirar os despojos dos rivais, as marcas da sua passagem, fazendo crer que os russos tinham lá chegado primeiro. Noutros casos, mais controversos, não havia provas físicas, sob a forma de fotografias ou outras, que atestassem a conquista do cume, mas a obsessão da vitória era tanta, tão trepidante, que os jornais proclamavam a façanha apenas com base no testemunho dos escaladores.

No Ocidente, em contraste, o alpinismo era, sempre foi, uma celebração do inútil. Um dia, quando os repórteres de Nova Iorque perguntaram ao montanhista britânico George Mallory porque queria subir ao Evereste, ele respondeu somente, mas lapidarmente: "Porque ele está lá". Na Rússia dos sovietes, tal atitude era considerada contra-revolucionária e burguesa, vista como traição ao povo, e jamais se utilizava a expressão "escalada", "subida" ou "expedição" sem lhe aditar um qualificativo utilitário, como "científica", "militar" ou "de prospeção". Com Estaline, o montanhismo tornar-se-ia um assunto de Estado, essencial para o prestígio internacional da URSS e para o engrandecimento do poder do tirano: aquilo que nos primeiros tempos dos bolcheviques era uma actividade lúdica ao ar livre, uma escola de virilidade e virtude para a mocidade, passou a ser controlado com mão-de-ferro pelo Estado, através do todo-poderoso Conselho Central dos Sindicatos da União; Estaline assinaria um decreto a autorizar que os guias fossem remunerados e foi até aprovado um manual draconiano, Regras para Escalada na URSS, aplicável a todos os montanhistas, mesmo os mais experimentados, como os irmãos Abalakov. A presença de estrangeiros nas expedições ou nos meios do montanhismo, originalmente tolerada (lembre-se a passagem de Anne-Marie Shwarzenbach pela Rússia, em 1937, onde adquiriu o espólio do alpinista suíço Lorenz Saladin), deixou de ser vista com bons olhos e, com o tempo, as longas jornadas pelos montes gélidos passaram a ser um exclusivo dos cidadãos soviéticos.

A última expedição em que os manos Abalakov participaram juntos foi a escalada ao Khan Tengri, o ponto mais elevado do Cazaquistão e o terceiro mais elevado do Quirguistão, cujo nome significa, na língua uigure, "Senhor dos Espíritos" ou "Senhor do Céu" e que constitui um dos cenários do livro mítico O Leopardo-das-Neves, de Peter Mathiesen, há pouco editado entre nós (Livros do Desassossego, 2022). Vitaly Abalakov fez essa jornada calçado com umas velhas botas do Exército, os pés congelaram, abriram ferida. Alguns dos seus camaradas morreram, ele escapou por um triz, mas tiveram de lhe amputar quatro falanges da mão direita, três da mão esquerda e um terço do pé esquerdo. Data daí o seu afastamento de anos com o irmão Yevgueni, que prosseguiu as aventuras montanhistas, mas sem o fulgor de outrora, e, em 1948, apareceria misteriosamente morto no seu modesto apartamento de Moscovo, com fortes suspeitas de assassinato.

Com as perseguições estalinistas, Vitaly tornou-se suspeito, desde logo pelos contactos que mantivera com cidadãos estrangeiros (Georgi Kharlampiev, outro explorador, seria acusado e fuzilado por ter recebido uma Leica das mãos de Anne-Marie Shwarzenbach e do irmão de Lorenz Saladin!), e, no decurso de um processo inconcebível, aquele que antes era tido como um herói soviético, comparado ao aviador Valery Chkalov ou ao explorador polar Ivan Pananin, que andara à deriva pelo Ártico em cima de uma placa de gelo, acabou sendo acusado de liderar uma fantasmagórica "Organização Contra-Revolucionária Facho-Terrorista de Alpinistas e Caminhantes". Foram presos e executados muitos montanhistas lendários, como o venerável Anton Nabokov, um cossaco de 84 anos que, ao longo de décadas, havia guiado todos os exploradores da cordilheira do Tian Shan, no Quirguistão, tanto no tempo dos czares como no dos sovietes. E, em 1938, Vitaly Abalakov seria detido pelo NKVD; levado para Lubianka, sofreu interrogatórios incessantes, às vezes durante dez dias seguidos, sob a mirabolante acusação de ter planeado um atentado na Praça Vermelha por ocasião do desfile do 20º aniversário da Revolução de Outubro. Acabou deportado para a Sibéria, onde esteve encarcerado dois anos, em terríveis condições, na infame prisão de Butyrka, a mesma que acolheria, em períodos distintos, nomes como Chalamov, Mandelstam, Evguenia Ginzburg, Isaac Babel, Sergei Korolev, Soljentisine e, mais recentemente, já em tempos de Putin, Sergei Magnitsky e Alexander Litvinenko. O antigo alpinista recordaria, anos mais tarde, que a tortura mais cruel que os guardas infligiam aos presos era obrigá-los a olhar para o chão enquanto percorriam o pátio, proibindo-os de contemplar o céu.

No final, a aventura do alpinismo soviético veio a revelar-se, ela própria, uma autêntica conquista do inútil, com gerações desfeitas, dezenas de vidas perdidas, ora nas subidas aos mais altos montes, ora nas prisões atrozes do estalinismo. Para agravar as coisas, os picos mais almejados e sonhados, os da cordilheira dos Himalaias, estavam vedados aos russos (algo que a cisão sino-soviética iria prolongar) e acabaram sendo conquistados pelos ocidentais, com Edmund Hillary a alcançar o cume do Evereste, em Maio de 1953, e Lino Lacedelli e Achille Compagnoni a atingirem o K2, em Julho do ano seguinte.

A história do alpinismo soviético, em parte épica, em parte trágica, é bem uma metáfora do que é e tem sido a Rússia ao longo de décadas, ou mesmo séculos. Agora, com a invasão de Fevereiro, Vladimir Putin parece apostado em conferir um outro significado à expressão conquista do inútil, dando-lhe um novo sentido, desastroso e desastrado, pois é de facto inútil, totalmente inútil, pensar que se pode ocupar a Ucrânia sem perder as graças do mundo. A estratégia, contudo, não era de todo lunática, ao contrário do que disseram e dizem alguns analistas ocidentais, e tinha até o seu quê de racional e audaz: o ditador do Kremlin e os seus esbirros foram as primeiras vítimas da sua própria propaganda em torno do "declínio do Ocidente" e acreditaram que nem os EUA, há pouco saídos sem honra nem glória do Afeganistão e a braços com uma invasão do Capitólio e uma guerra civil iminente, nem a Europa, comodista e dependente do gás russo, seriam capazes de reagir como reagiram aos avanços dos tanques e das tropas. Se acaso a Rússia tivesse tido uma vitória-relâmpago nas primeiras semanas, capturando e matando Zelensky, uns patéticos "referendos" no Donbass iriam finalmente "desnazificar" o território, permitindo uma anexação tranquila e sem traumas.

Os precedentes da Chechénia e da Crimeia motivavam Putin, o fortalecimento da economia também, a parceria com a China idem: acaso a Alemanha de Merkel não tinha continuado a apostar em força no gasoduto Nord Stream, mesmo sabendo-se das barbaridades em Grozny, do assassinato dos opositores políticos, da anexação da Crimeia? Acaso o mundo não tinha ido em cortejo às Olimpíadas de Inverno de Sochi, em 2014, e, pior ainda, ao Europeu de Futebol, em 2020? A operação da Ucrânia iria gerar barulho, protestos na ONU, uma ou outra sanção, mas acabaria por saldar-se num colossal triunfo, consolidado pelo decurso do tempo, pelo apoio do povo russo e pela passividade das lideranças e das opiniões públicas Ocidentais, muitas delas, de resto, sempre alinhadas com as posições moscovitas. A invasão tinha, pois, um "racional", como agora se diz, mesmo que desafiasse toda e qualquer noção de racionalidade.

Depois, foi o que se viu. O princípio da derrota russa não começou há semanas, com a ofensiva ucraniana de Agosto. Iniciou-se, isso sim, logo em Março e Abril, quando os Exércitos russos foram incapazes de lançar um blitzkrieg sobre Kiev e se afundaram no impasse que lhes será fatal. Agora, Putin quer ganhar tempo, aposta no poder do "General Inverno" sobre uma Europa a tinir de frio, contando que isso divida governos e cidadãos. Numa coisa está certo: as nossas democracias são democracias de bem-estar, nas quais os eleitores apreciam e valorizam a democracia enquanto ideal abstracto e muito bonito, mas não estão muito dispostos a morrer por ele e, mais ainda, só o apoiam se ele lhes der em troca um estilo de vida confortável e prazenteiro. Se os governos falharem a promessa de bem-estar, muda-se de solução política, mesmo correndo riscos para as liberdades, ou elegendo palhaços corruptos e vis, como o inenarrável Orbán.

Vladimir Putin, note-se, não só ainda não perdeu a guerra como é incomensurável o grau de devastação que pode vir a causar, seja à Ucrânia, seja à Europa. Nunca subestimemos o poder destrutivo de um ditador insensível ao sofrimento alheio, a começar pelo sofrimento do seu próprio povo. Neste final de Setembro, a guerra entrou, assim, nas suas fases mais perigosas, porventura a mais perigosa, pois, para quebrar os ânimos ucranianos e acalmar o ânimos russos, Putin precisa em desespero de um qualquer triunfo espectacular e este está a cada dia mais longe. Talvez esse triunfo surja sob a forma de bombas nucleares, hipótese não muito provável, o que afunila ainda mais o leque das opções do Kremlin. O Exército está cansado e desmotivado, sem equipamento, a economia num caos, a população inquieta, a China e a Índia à espreita, uma conjunção de factores que torna ainda mais apetecível o uso cego da força e a brutalidade em massa (ou o recurso a "Operações Especiais" tão ao gosto do antigo chefe das secretas). Aumentam, pois, os riscos de chacinas sobre civis, de ataques à bruta a centrais nucleares, escolas e hospitais e, no limite, não é descabido supor que irão surgir sabotagens aqui e acolá (inclusive, no Ocidente), ataques pontuais sangrentos, inclusive terroristas, bem como massacres de soldados russos no Leste da Ucrânia, uns da autoria revanchista das tropas de Zelensky, outros encenados por Putin para se limpar perante o seu país e o mundo. O tirano moscovita sabe que joga aqui a sua sobrevivência, política e até física, pelo que será capaz de tudo, absolutamente tudo, no derradeiro esforço da sua conquista do inútil.

Tem-se louvado muito, e bem, a extraordinária coragem de Zelensky e dos ucranianos. Mas é também devida uma palavra a Ursula von der Leyen e a Bruxelas. Ao contrário do que muitas vezes se diz, a Europa não está "unida" contra a ameaça do Kremlin, mostrando-se, ao invés, extremamente dividida, seja na forma como lidar com Putin, seja na defesa dos interesses egoístas de cada Estado-membro, uns temendo pela energia, outros pela segurança. É isso que torna ainda mais notável a liderança de Ursula von der Leyen, o facto de ela ter conseguido, por certo com grande esforço, que Bruxelas impusesse um denominador comum aos diversos Estados, um vector dominante assente na defesa da democracia, da liberdade, dos Direitos Fundamentais. A União Europeia está a mostrar, par une fois, que foi capaz de ver para além dos seus interesses económicos imediatos, os quais passariam por aceitar as exigências de Putin a troco de energia barata e do acesso ao mercado russo. Perante a maior ameaça existencial que sofreu desde a 2ª Guerra, o que poderemos dizer é que até agora, e por ora, a Europa se está a sair bem, muitíssimo bem, bem melhor do que esperávamos (importa, contudo, não embandeirar em arco e lançar foguetes, como nos idos de 1989, pois foi precisamente o "triunfalismo da Guerra Fria" que nos levou onde estamos).

Em muitos anos de História, a Europa surpreende hoje pela defesa de valores e de princípios, por ser capaz de alcançar mais longe do que os egoísmos nacionais e, pior, nacionalistas. É para isso, justamente para isso, que existem as associações de Estados, chamemos-lhes federações ou outra coisa qualquer. A guerra da Ucrânia talvez ponha termo à Federação da Rússia, mas pode bem ser o início de algo mais para a Europa. Uma coisa é certa, e a cada dia mais nítida: hoje, não por culpa nossa, a paz faz-se com a guerra - e, vivo ou morto, Putin tem de cair.

Historiador.
Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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