A China e a guerra na Ucrânia - muito a perder e pouco a ganhar

A guerra criada pela invasão da Ucrânia traduz-se numa flagrante violação do direito internacional, que é o fundamento de um dos pilares da política externa da China - os Cinco Princípios da Coexistência Pacífica, onde se incluem o respeito mútuo pela soberania e integridade territorial, a não-agressão e a não-interferência nos assuntos internos de outros países. Na ONU, a larga maioria dos países condenou a Rússia e sublinhou o risco que a guerra na Ucrânia representa para a paz mundial. A China absteve-se. Expressando preocupações com a expansão da NATO e a segurança fronteiriça da Rússia, afirma-se neutra. A principal razão radica num desejo de catalisar a mudança para um mundo no qual os EUA deixem de ser a superpotência preeminente. E, quanto maior for o foco dos EUA na Europa, menos tempo devotarão ao Extremo-Oriente, diminuindo destarte a pressão para travar a ascensão da China. Existe ainda a tentação de aproveitar a situação de fragilidade económica do seu "principal parceiro estratégico" para fazer entrar capital chinês em relevantes empresas russas de petróleo, gás, cobre, níquel, alumínio e outras.

A guerra na Ucrânia está a prejudicar economicamente a China. A China importa mais petróleo do que qualquer outro país e o conflito na Ucrânia elevou os preços para os níveis mais altos desde 2008. E precisa de energia, metais e minerais, bem como de produtos agrícolas para a sua economia. Quer a Rússia quer a Ucrânia são grandes fornecedores de trigo e outros produtos alimentares; a ONU alertou que, dependendo de quanto tempo durar, a guerra pode elevar os preços dos alimentos entre 8% e 20% este ano. Todos estes produtos de base encareceram com a guerra.

Em termos de trocas internacionais, em 2021 o comércio da China atingiu 756 mil milhões de dólares (mM$) com os EUA e 828 mM$ com a UE, e apenas 147 mM$ com a Rússia. A globalização foi benéfica para o desenvolvimento económico da China. Não obstante o crescimento do mercado doméstico, a economia chinesa continua muito dependente dos mercados de exportação. Além disso, as empresas americanas e europeias continuam a ser uma importante fonte de investimento, fornecendo ainda acesso a inovação e tecnologia de vital importância para a China.

A disrupção desta guerra no funcionamento do corredor terrestre euro-asiático da BRI não será pequena. Se a opinião pública europeia percecionar a China como aliado ou protetor da Rússia, as consequências disso para as empresas chinesas e os produtos chineses nos mercados europeus podem ser graves.

Esta guerra veio confirmar que a UE é um dos polos essenciais do mundo. A sua relevância económica e financeira é clara. O seu soft power é grande, a atratividade como modelo de sociedade é enorme. O aumento das despesas militares nos próximos anos transformá-la-á numa superpotência militar. As sanções ora aplicadas à Rússia mostram que no plano financeiro o mundo está longe de ser multipolar e alguns bancos e empresas estatais chinesas entenderam bem os riscos subjacentes.

Com as opiniões públicas europeia e americana incendiadas com a agressão da Rússia à Ucrânia, talvez seja o momento de a China ponderar se deve prolongar esta situação de neutralidade colaborante com a Rússia. É que tem muito a perder e pouco a ganhar.

Consultor financeiro e business developer
www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira

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