A publicação pelo Centro Nacional de Cultura do "e-book" Movimento de Renovação da Arte Religiosa - Textos e Artigos, organizado por João Alves da Cunha, constitui um elemento fundamental para compreendermos a história do que se iniciou graças a um grupo de jovens entusiastas, que hoje nos lembra a importância da educação dos fiéis e do clero em matéria de arquitetura e espaço litúrgico. E esta necessidade leva-nos à exigência de atualização do ensino artístico nos seminários; à obrigação de concursos públicos de projetos (com júris idóneos) para as obras nos templos; à absoluta conveniência em atribuir as obras de arte e de arquitetura a artistas e arquitetos; e ao reconhecimento das linguagens artísticas próprias do nosso tempo. O que o Padre João Norton de Matos refere no prefácio do livro neste sentido é fundamental..Como recorda o sócio número 1 do Movimento, o arquiteto António Freitas Leal, tudo começou em 1952, mas os primeiros frutos surgiram em abril de 1953, com a Exposição de Arquitetura Religiosa Contemporânea na galeria de S. Nicolau em Lisboa. E o esforço inicial dos arquitetos frutificou, juntando-se-lhes críticos, historiadores e pintores que trouxeram um rico complemento. A Exposição rumaria ao Porto e depois a Ponta Delgada, Braga, Coimbra, Funchal e Moçambique, sendo acompanhada de conferências e entrevistas na imprensa e na rádio. A opinião pública foi agitada e o ambiente mudou. A verdade é que, apesar das resistências e desconfianças, houve uma evolução no sentido de uma melhor compreensão, principalmente do clero mais jovem, que começou a assumir que a Casa de Deus deveria ser em "estilo moderno". Alguns mantiveram-se resistentes, mas usando as palavras de Freitas Leal: importaria, "para sanear o meio, atingir as elites, ou melhor, os responsáveis pela orientação da mentalidade - os universitários. Paralelamente, fomentar a criação de espírito de exigência e profundidade da parte dos artistas, pois não basta fazer moderno, direi mesmo que esse não é o problema". Pintores, escultores e arquitetos deveriam realizar obras de qualidade, que seriam necessariamente atuais. Com verdadeiro entusiasmo, Vitorino Nemésio acompanhou o movimento, referindo "a pequena, mas valente revista" que os alunos do Seminário de Cristo-Rei dos Olivais antiveram sob o benigno nome de Novellae Olivarum, enquanto prometedores rebentos que tinham como lema o salmo: sicut oliva virens in domo Dei, como oliveiras verdes na casa de Deus..O movimento situa-se na antecipação do Concílio Vaticano II. Tinha havido muitas esperanças renovadoras na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, de Porfírio Pardal Monteiro (1938), a primeira a ser construída de raiz depois da República. Todavia houve a seguir um certo recuo, importando avançar. Assim, por indicação do Cardeal Cerejeira, no início da década de 1950, o então Padre João de Almeida viajou para Paris a fim de estagiar com os padres dominicanos Couturier e Régamey, diretores da revista Art Sacré, e para a Suíça, onde trabalhou com Hermann Baur. O impulso de João de Almeida, com Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, foi fundamental para a criação do MRAR..Nomes como os futuros Bispos D. António dos Reis Rodrigues e D. Albino Cleto, Maria José Mendonça, Madalena Cabral, José Escada, Diogo Lino Pimentel, além de Avelino Rodrigues e Henrique Noronha Galvão deram corpo a um movimento para o qual, como afirmou Nuno Portas, "o problema da arte sacra nos nossos dias torna-se capital não só para o pensamento católico, mas também para a cultura laica... e, afinal, também para a cultura arquitetónica". E José Escada lembrava que "a Igreja teve nas grandes épocas um papel precursor e promotor de Arte e hoje pode ainda estimular no seu seio o encontro entre a arte moderna e o público". Visite-se a igreja de Santo António de Moscavide de Freitas Leal e João de Almeida (1955) e compreenda-se tudo.. Administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian